Literatura, opiniões, memórias, autobiografias, e demais diletantices.
Sexta-feira, 3 de Junho de 2016
O REAL QUOTIDIANO

 

 I                            

Eduardo Lourenço numa entrevista ao Jornal de Negócios:

"O PCP foi a divina surpresa. Foi um golpe de talento,de génio. [...) Agora que o adversário quase mítico do PS leve o PS para o poder, se isto não é um milagre de Fátima não sei o que lhe chamar."

 

 

 II

Na 1ª Guerra Mundial morreram 7600 portugueses.
Na Europa 2000;
Em Angola 800;
Em Moçambique 4800.
"Na Grande Guerra de 1914-18, o exército português sofreu a sua maior derrota em África desde Alcácer Quibir. No Norte de Moçambique morreram mais soldados portugueses do que na Flandres. Não tanto pela razia das balas alemãs. Mais pela fome, pela sede, pela doença e pela incúria. Minada pela vergonha, a I Guerra em Moçambique acabou votada ao esquecimento. Não tinha lugar numa nação que até 1974 sonhava com um império ultramarino"
Durante o Estado Novo para denegrir a Republica só se referiam os mortos em França...

 

 

 

III

 Manuel Alegre que fez 80 anos no passado dia 12 é um dos meus poetas preferidos que acompanhou a minha geração desde o tempo dos anos de chumbo (como diria Eugénio Lisboa).
Descobri agora que ama Pessanha [Ao longe, os barcos de flores], como eu. Também António Nobre o das [Ó, virgens que passais,ao sol poente] musicado por Lopes Graça e ainda Herberto Helder. Pois foi entrevistado por Luís Caetano para o seu incontornável (como se diz agora) "A Ronda da Noite".
Vai do 01:00 ao 49:14 e termina com a ária “e lucevan le stelle” da “Tosca” numa belíssima versão de Luciano Pavarotti, gravada, penso que em 1987, nos tempos em que ainda não andava pelos estádios a cantar de microfone.

http://www.rtp.pt/play/p1299/e236209/a-ronda-da-noite

Já agora a canção de Lopes Graça de 1951 do poema de Nobre, cantada por Elsa Saque acompanhada por Nuno Vieira de Almeida. Não consegui a de Fernando Serafim, a minha preferida.

https://www.youtube.com/watch?v=rovJsIgY_U8



publicado por Dito assim às 15:00
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Vendidos, sempre houve

Paul Krugman escreveu no New York Times:
"As coisas estão terríveis em Portugal, mas não tão terríveis como estavam a um par de anos".

O jornal digital Observador traduziu assim

"As coisas estão terríveis em Portugal".

Só isto.



publicado por Dito assim às 14:43
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Mais uma crónica de António de Sousa Homem

Os cálculos na vesícula, os sintomas de um reumatismo que o atacava quando o Outono se aproximava ou a certeza de que o fim das coisas era inevitável abriam-lhe a porta ao pessimismo em geral e à descrença no futuro – mas a visão de um mundo encavalitado às costas do "progresso" era o aspecto mais penoso da existência. A esta distância, compreendo-o; ser "contra o progresso" é nos nossos dias um pecado capital, e resmungar contra "a criatividade" tornou-se uma apostasia definitiva e dramática.

 

O "ser humano" está condenado a acreditar na criatividade sem limites, na originalidade, no progresso, na mudança e, finalmente, na ideia de que as coisas novas são sempre superiores às antigas. Isto pode fazer confusão a um velho do Alto Minho, educado pela vida (e pelos desaires) a apreciar as coisas que permanecem e a desconfiar das invenções em que não vê grande utilidade.

 

A minha sobrinha Maria Luísa – a eleitora esquerdista da família – já foi uma sacerdotisa do Progresso (com maiúscula). Hoje, desconfia bastante da direcção que as coisas tomam, e o seu optimismo em relação à espécie humana é morigerado. Alimento a esperança, dissimulada por muita cautela e certo tom de ironia, de vê-la feliz como Dona Ester, minha mãe, gostava de ver felizes os seus filhos, espalhados sobre o areal da praia de Afife, respirando o iodo da tarde e abrigando-se do vento galego que descia pelo litoral. Os sucessos e insucessos dos últimos setenta anos ensinaram-me a desejar pouco, a aceitar a grandeza das coisas desconhecidas, a reler os livros que já foram belos algum dia, a manter alguma fé numa ordem que comanda os planetas ou a solidão das dunas de Moledo. Ao mesmo tempo, esse egoísmo não faz mal aos outros. Não exige muito deles. Não lhes oferece demasiadas desilusões, nem utopias, nem promessas vãs de um mundo perfeito. Não lhes alimenta a fé nas coisas impossíveis que exigem que os outros mudem para que nós possamos satisfazer os desejos pessoais.

 

Esse mundo perfeito existe, sim – mas terminou há muito, antes do progresso, da democracia e dos défices da economia. Também é preciso lembrar que não se pode voltar atrás nem é possível recuperar o tempo perdido. O que está perdido, está perdido. O que passou, passou há muito.



publicado por Dito assim às 14:31
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Sábado, 28 de Maio de 2016
ENSINAR, COMOVER E DELEITAR (A propósito das crónicas de Pedro Mexia)
ARTE DA VIDA

José Cutileiro, nas crónicas de A.B. Kotter (inglês a viver em Colares, ex- agente secreto do MI 15 e que haveria de morrer afogado na Argentina) escreve que sua mãe era uma wagneriana - e era das piores porque se converteu em crescida. Ora eu, que não sou um wagneriano tardio, serei um admirador de Pedro Mexia tardio o que pode ser visto como um entusiasmo adolescente.
Escrevia Manuel António Pina, e quem não se lembra das suas crónicas no JN?, em 2012 no prefácio a “O Mundo dos Outros”:

"Aprende-se muito com estas crónicas de Pedro Mexia (eu aprendi), quer acerca de literatura e outras artes – fotografia, BD, música, cinema, teatro, ou mesmo design publicitário; e, principalmente, da conturbada e incansável arte da vida, não é por acaso que a presente recolha se intitula “O Mundo dos Vivos” – quer acerca da complexa, e não raro sórdida, natureza dos homens e das sociedades humanas; e, sim, há aqui muita informação, isto é, muito jornalismo. E aprende-se com inesperado prazer, coisa essa, o prazer de ler, quase tão improvável de encontrar hoje em jornais quanto informação desinteressada.
Rudolfo Agrícola escreveu no século XV que a literatura serve ut doceat, ut moveat aut delected, que é como quem diz para ensinar, para comover e para deleitar".

Depois das crónicas, vou agora desbastar as memórias que, com os diários, fazem um dos meus géneros literários preferidos.


publicado por Dito assim às 20:07
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Sexta-feira, 13 de Maio de 2016
A Rendição de Breda de Velasquez (1635)

Velázquez_-_de_Breda_o_Las_Lanzas_(Museo_del_Prad

Não tenho palavras.



publicado por Dito assim às 18:03
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Quinta-feira, 12 de Maio de 2016
Alguns quadros de cinismo político

O meu avô, administrador de quintas no Douro, foi colega de carteira de José Domingues dos Santos, que chefiou o ministério republicano de 1924 – um prodígio de radicalismo favorecido pelo presidente incumbente, Manuel Teixeira Gomes. O objectivo de Domingues dos Santos era o de "controlar o défice", galopante e desgovernado, mas também o de exercer um "controle mais exigente" sobre o país. Só isso explica que, em vez de acumular a chefia do governo com a Fazenda, tenha preferido a pasta do Interior, que dizia respeito às polícias e à vigilância. Durou três ou quatro meses; durante esse período, uma milícia republicana assaltou o escritório do meu avô. Foi uma operação despropositada; o meu avô era um homem cordato e discreto. Guerra Junqueiro, que morrera no ano anterior, em 1923, recebia-o na Quinta da Batoca, em Barca d’Alva, onde se dedicavam à contemplação dos crepúsculos, a diálogos sobre o míldio, à contabilidade – e, uma vez ou outra, à comunhão que podia existir entre dois homens desiludidos: Guerra Junqueiro, com a República; o meu avô, com a oposição ao regime e a possibilidade de implantar o "sistema inglês".

 

A ideia de importar o "sistema inglês" era impossível de concretizar: faltavam recursos, faltava uma nobreza séria, faltava a monarquia e, naturalmente, faltava a Inglaterra. O velho Doutor Homem, meu pai, prolongou o desvario: detestava o dr. Salazar, julgava-se um conservador do Surrey, lia o ‘Daily Telegraph’ e citava Benjamin Disraeli num país que tinha sobrevivido a uma guerra, ao constitucionalismo e à ditadura republicana, sem falar do mau feitio da Tia Benedita, a matriarca miguelista da família, que até a morte vir buscá-la temeu o regresso de Afonso Costa para roubar as igrejas e instalar bolchevistas nas comarcas do Minho.

 

Não houve nenhuma catástrofe. O ministério de Domingues dos Santos pediu desculpas ao meu avô pelos abusos dos milicianos. O dr. Afonso Costa morreu em França, e o Tio Henrique (o melómano dos Arcos de Valdevez) chegou a imitar- -lhe vagamente a barbicha para assustar a Tia Benedita. O meu avô sobreviveu à fuga dos ingleses do Douro. O velho Doutor Homem, meu pai, insistia que de vez em quando era preciso um governo de esquerda para que se instalasse a esperança de uma normalidade futura. Ele tinha lido Lampedusa; o mundo não o surpreenderia.


(Do Correio da Manhã - Crónicas de um reacionário minhoto em Moledo).  



publicado por Dito assim às 20:10
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"Somos todos felizes outra vez."


Dos "Bilhetes de Colares" de A.B.Kotter em 1993:

"É verdade que acabámos com o comunismo - uso o verbo na primeira pessoa porque quando estive no M15 também meti o ombro à roda -, mas bem podemos limpar as mãos à parede. Várias noites sonho que Brejnev ainda está vivo e somos todos felizes outra vez."

 

Este texto é da autoria de José Cutileiro, um dos meus cronistas preferidos.

...

Para os jovens:
1- O M15 são os serviços secretos ingleses e Kotter, reformado, vivia em Colares, Sintra.
2- Brejnev (1906-1982) foi um chefe de estado que esteve à frente da liderança da União Soviética entre 1964 e 1982.

 



publicado por Dito assim às 19:44
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Sábado, 7 de Maio de 2016
OS NEGÓCIOS E A SUBSERVIÊNCIA

O acordo ortográfico de 1990 foi ontem discutido no programa "A Ronda da Noite" na Antena 2, por Malaca Casteleiro (a favor) e Teolinda Gersão (contra).
São 50 minutos de debate muito útil para quem estiver interessado. A minha opinião é que os negócios e a subserviência ditaram o referido Acordo, como, aliás Teolinda Gersão muito bem explicita:
Podem ouvir, se atentamente, em:

 

 
O Acordo Ortográfico volta a estar em cima da mesa? Na véspera do Dia da Língua Portuguesa A Ronda recupera a discussão entre Malaca Casteleiro e Teol
rtp.pt
 


publicado por Dito assim às 11:44
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Em Guimarães no Toural em 26 de Abril de 1974

O Toural às 19 horas de 26.4.1974. Vê-se com a bandeira de Portugal o advogado Dr. Salgado Lobo. Filmado em Super8 pelo meu irmão.

 


publicado por Dito assim às 11:42
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O 25 DE ABRIL DE 2016

"Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo"

Ontem foi um dia bom. A homenagem a Salgueiro Maia,os discursos do PR,a abertura às pessoas do Palácio de S. Bento, as manifestações...
O outro e os outros arredados.



publicado por Dito assim às 11:40
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