Literatura, opiniões, memórias, autobiografias, e demais diletantices.
Segunda-feira, 3 de Agosto de 2015
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Lições básicas de economia política

 

O velho Doutor Homem, meu pai, passou a maior parte da sua vida a tratar de segredos de direito bancário, uma especialidade pouco romântica, pouco popular e nada literária. Eu, seu filho mais velho, segui as suas pisadas por preguiça – na época, o sistema bancário tinha alguma coisa do século XIX, e os seus escritórios e dependências albergavam retratos de gente ilustre que o tinha inaugurado.

 

O que acontece, pelas minhas memórias – e pelas que roubei ao velho Doutor Homem, meu pai –, é que desde meados do século XIX Portugal pouco mudou. Tentei explicar à minha sobrinha Maria Luísa que devia ler Oliveira Martins com o argumento de que o seu ‘Portugal Contemporâneo’ era uma novidade editorial de fôlego. Ela compreendeu a ironia: o país já não era uma terra de velhos e austeros comerciantes ou prestamistas, mas continuava a ser administrado pelos herdeiros do Constitucionalismo que ganharam dinheiro com as obras públicas de Fontes Pereira de Melo, que ganharam dinheiro com o comércio de víveres e de influência durante a República, que ganharam dinheiro com o regime do dr. Salazar e que, finalmente, retomaram os seus direitos históricos com a democracia de hoje. Esta visão, simples e injusta, merece-lhe aplauso. Por instantes viu-me com um votante potencial do Bloco de Esquerda, preparado para aclamar o casamento entre cavalheiros para fumar haxixe nas dunas ao fundo dos pinhais de Moledo.

Remediado e manhoso, tanto como ignorante e vaidoso, o Portugal do Constitucionalismo prolongou-se até hoje. A Tia Benedita, a matriarca miguelista da família, que não estudou economia nem chegou a conhecer o FMI, percebeu que ao velho regime dos seus avós se tinha sucedido um casamento de conveniência entre os negócios do Estado e os dos prestamistas e negociantes, o que garantiria uma alegre corrupção colectiva – mas sem alma, sem espírito e sem travão a emprestar-lhe alguma decência.

 

Os Homem de várias gerações compreenderam esta arquitectura e viveram nas suas margens, dedicados a sobreviver e a cuidar do colesterol alto, mal ele foi inventado. Pertenciam a outro mundo. Ganhavam a vida, guardavam os retratos e mantiveram reunidas as peças de Companhia da Índias no velho casarão de Ponte de Lima. Mas não confiavam. Maria Luísa, a esquerdista da família, vê nisto um sinal de honradez delicada. Não é bem isso; é, muito mais, o pessimismo ardente de uma família de derrotados que vê o seu país entregue a comerciantes dos sertões. Não é tão nobre, evidentemente, mas serve para dizer que já contávamos com esta gente.

 

(Crónica de Francisco José Viegas no blogue "António de Sousa Homem" de 2012)



publicado por Dito assim às 11:35
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