Literatura, opiniões, memórias, autobiografias, e demais diletantices.
Terça-feira, 11 de Março de 2014
UMA CRÓNICA DE JORGE SILVA MELO
Não sou o público-alvo

 

O erro foi meu, entrei numa livraria. Parecia-me ter entrevisto na montra o novo livro de António Tabucchi, entrei. Para chegar ao fundo, ao lugar onde há vários livros (numa livraria, não devia ser o lugar principal?), atravessei várias bancas de bugigangas, revistas que oferecem chinelos e cafeteiras Bodum, agendas, os ominipresentes Moleskine. E as primeiras Bancas eram de “Best sellers e novidades com capas picantes, pernas de mulher por todo o lado, um rabo ou outro, siglas iniciáticas. Fiquei, parvo, a olhar para aqueles livros todos, quilos de papel. Aquilo não era para mim, fora um erro entrar ali, aquele negócio é para outras pessoas (sexodependentes? E compraram livros?), as editoras e os livreiros tentam desviar para dentro daquelas casas sombrias a senhora talvez licenciada que a essas mesmas horas há de mas é estar no cabeleireiro, talvez mesmo no café ao lado a comer uma sande de queijo fresco sem manteiga. Foi a primeira vez que me senti a mais numa livraria, tantas foram as que me foram familiares desde a adolescência.

 

Definitivamente: não sou público alvo. Com base 60 anos, boas notas na universidade, conhecimento de algumas línguas estrangeiras, não é para mim que agora se produzem livros, passei ao quadro dos excedentes da clientela. Aliás, não encontrei o Tabucchi que, sereia falaciosa, me atraíra lá para dentro, para onde só vi um mundo de conselhos práticos ou fantasias erótico medievais político iniciáticas que, de todo, não é para a minha idade e condição cardíaca. Já na rua, horrorizado, snob, e com a Primavera a trazer-me saudades de Saint-Germain des Prés (tantos livros a descobrir confiando na tenacidade dos editores a defender o seu bom nome), pus-me a fazer contas. E posso apostar em que não haveria, naquela loja moderna e central, mais de 8 por cento “de literatura”. Estranho que a literatura seja agora minoritária precisamente no negócio dos livros, ou não será? Aqueles produtos eram o que se chama entretenimento mas quem se entretem com aquilo tudo, ou livros de conselhos mas as pessoas lerão estes milhares de conselhos para emagrecer, fazer saladas, engordar, amar, falar com o chefe, arranjar emprego? Romances históricos desde o Monge de Cister de Herculano que não os quero ver à frente fábulas, livros de engane ou paródia. Está bem, nem há literatura nas livrarias nem eu sou o cliente pretendido, eis me reformado. E lá fui à tabacaria em frente onde aí sim, se encontram agora Bulgakov, Calvino, Pavese, Hamsun, Andric, Tolstoi, Migueis, Cervantes, e até Teixeira – Gomes, literatura, coisa para velhotes, imagino, entre dois registos para a Santa Casa.

 

E eu que queria tanto ser público alvo, que se me dedicassem edições, programações, que ainda se dirigissem a mim. É que ainda gastava algum dinheiro, juro…quando leio por todo o lado que o desígnio das políticas é a formação dos públicos para comprar livros com pernas abertas de rapariga elegante?, entro na melancolia, sinto-me folha morta. O que farão comigo, público já formado? Lixo comigo? Ou terei de passar por educando, iletrado, ignorante para poder entrar num teatro?

 

A pouco e pouco, o meio político, cultural, editorial, curatorial, programatorial… descobriu outro destinatário, senhoras ginasticadas, moçoilas aprendizas do amor e os jovens, esses jovens que lhes enxameiam os discursos. E que é deles, que não os vejo nas livrarias, a nenhum desses alvos?

 

E não é só com livros, não é filmes, é teatros, nada disso será doravante para mim. Lembrem-se das recentes declarações da ministra segundo a qual o Teatro Nacional terá como público alvo os jovens e eu, que nunca o quis ser? Não tenho direito a ir ver um teatrinho normalmente para adultos ou mesmo velhos? A ver mais ou menos sic se eles ficam mais tolerantes. E percebo que, para existirem, as artes ??? terão de se portar muito bem à mesa, não citar os intolerantes, serão bem comportadas, iogurtes de frutos vermelhos com bifidus, artes limpinhas, para poderem ser propagandeadas como calmantes sociais, gerando boas maneiras políticas.

 

Saudades ao Vítor Silva Tavares, casquinemos!; Ou também a mim me reciclam, laranja mecânica, a ver se fico “tolerante”?

 

Foi um erro entrar naquela livraria, vi-me dispensado da vida. Mas talvez seja essa a verdade.



 


( crónica de Jorge Silva Melo, publicada no suplemento literário do jornal Público)



publicado por Dito assim às 16:40
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Domingo, 9 de Março de 2014
UM TEXTO NO JORNAL I DA AUTORIA DE SÍLVIA CANECO

Até que a morte não nos separe. Manuela e Ludgero decidiram morrer juntos (2ª parte)

 

 

A queda Aos poucos, os acontecimentos iam encaminhando o casal para a tragédia. O primeiro baque veio com a morte da irmã de Manuela, um fim relâmpago depois da notícia de um cancro da mama. No dia do funeral, concentrou- -se num só detalhe: depois da doença que a tornara quase irreconhecível gostara de a ver no caixão "muito compostinha". A filha parecia cada vez mais distante: numa das últimas idas à clínica onde ambas trabalhavam, para fazer um exame, Manuela saiu de rastos porque a filha nem sequer se aproximou. Em Agosto rebentou-lhes um cano na casa de banho. Ela passou a ir tomar banho a casa de Sandra e Paulo, ele começou a lavar-se com toalhitas. Nas últimas semanas, tinha chegado à caixa de correio uma carta da junta de aposentação: há anos que Manuela esperava por aquele momento, mas agora que ele estava próximo começara a fazer contas. A ideia de vir a receber ainda menos dinheiro, somada ao corte na reforma de Ludgero, destruía-a. Pelo meio dos jantares e conversas nocturnas, iam deixando desabafos: "Quando se acabar o cartão de crédito, não sei como vai ser."

A mudança nas rotinas de Sandra e Paulo foi o desastre derradeiro. Sandra arranjou trabalho em Agosto, em Lisboa. Manuela, mesmo assim, ficava no café à espera dela. Na última semana Sandra chegou mais tarde por causa de um congresso e Manuela ia-se arrastando, cada vez mais sozinha, carregando sacos de compras inúteis. Por dentro, em silêncio, o casal sabia estar mais próximo da morte.

"Sabíamos que quando fosse iriam os dois", desabafa Sandra. "Sinto-me magoado com eles. Ficámos a perder em todos os aspectos. Não deviam ter feito isto connosco", remata Paulo, num misto de revolta e inquietação por não ter feito mais. Na casa onde jazem sobre o sofá roupas do casal passadas a ferro, mais dois minutos de silêncio, lágrimas e angústia.

A angústia É quarta-feira e o casal não regressa nem telefona a avisar que adiou o retorno, ou a perguntar pelo Dusty. Sandra e Paulo começam a ficar inquietos: tudo parece confirmar os seus instintos. À noite tentam ligar para Manuela e Ludgero: os dois telefonemas vão directos para a caixa de mensagens. Vão ao prédio e falam com a porteira e com Lucília, que também tenta ligar, mas não consegue. Na sexta ligam pela primeira vez para a PSP a relatar o desaparecimento. Quem atende dá uma resposta brusca: "Há algum cheiro no prédio? Vocês nem sequer são família e eles são maiores e vacinados."

A essa hora, se a morte tiver sido imediata, já os corpos deitados nos lençóis começavam a entrar em putrefacção. Mas se a dose de comprimidos tiver sido mais reduzida, o processo pode ter sido tão lento que naquele momento os corpos ainda podiam estar em coma e agonia. A morte, dizem os investigadores, não é um momento, mas um processo.

A partir daquele momento não houve dia que São, a porteira, não espreitasse pelo buraco da fechadura. Tudo escuro. Sandra e Paulo ligam de novo para a PSP, que volta a pedir nome, contacto e morada e promete ligar de volta. Nunca ligaram e o casal começou a pensar que o problema estava na morada, que remetia para o prédio problemático em que os bombeiros tinham de transportar macas pelas escadas até ao 9.o andar porque os elevadores só funcionaram nos primeiros meses. Também chegaram a ligar para a Polícia Judiciária, que, depois de repetir as mesmas perguntas, os aconselhou a contactarem a PSP. Sandra insistia ter indícios de que o desaparecimento tinha sido planeado. Nada aconteceu.

Só quando o calor voltou, depois de uma semana de chuvas e temperaturas frias, um ligeiro cheiro a podre se infiltrou no prédio. As moscas varejeiras, que as superstições associam à chegada de uma carta ou de uma novidade, começavam a rondar o edifício. As vizinhas subiam e desciam vários andares para espreitaram o apartamento de vários ângulos, com olhar de corujas. Até que a do 6.o andar teve uma ideia: amarrou a trela da cadela a um espelho e fê-lo descer lentamente até à janela do quarto do casal. Quando o objecto tocou no cortinado salmão que há duas semanas baloiçava, do lado de fora, para cá e para lá, um enxame de varejeiras saiu do quarto e um cheiro agoniante começou a subir. De lá de dentro não conseguiram ver nada.

Na quarta-feira, 18 dias depois da última vez que tinham sido vistos, São anda pelos corredores a limpar o prédio e com vontade de vomitar. A vizinha do lado também já não aguenta e corre para a PSP: tinham de ir lá, já.

A essa hora, os tecidos estavam em total decomposição. A pele enchera-se de bolhas e rebentara com a pressão dos gases, que libertam uma mistura nauseabunda de gás sulfídrico, metano e amónio. Um elemento da PSP quebra o silêncio para fazer uma só pergunta às vizinhas: "Eram brancos ou pretos?" As bactérias famintas deixam os cadáveres irreconhecíveis.

O fim O que tinha acontecido no 4.oC do prédio de 90 apartamentos? Uma equipa conjunta da brigada de homicídios e da polícia científica ainda estava no terreno a investigar e já a vizinhança encontrava as suas respostas.

Manuela e Ludgero sabiam que iriam morrer e planearam-no com minúcia e requinte. Não foi só o cão que foi entregue para que não morresse, também ele, à fome e à sede. Os telefones foram desligados, a viagem foi encenada, a mala, deixada na sala, estaria de facto vazia. Na mesa-de-cabeceira, ao lado da cama, uma carteira guardava todos os documentos de identificação e cartões bancários.

Mas como poderia Manuela estar tão calma e silenciosa antes de morrer? Teria sido um plano a dois ou Ludgero, um homem "à antiga", "azedo" e com um grande ascendente sobre ela, tê-la-á convencido prometendo-lhe um futuro novo e mais feliz? Que desgraça determinou que aquele seria o momento?

Os investigadores não suspeitam de outra hipótese que não um duplo suicídio. Não havia indícios de confronto, desalinho ou desarrumação. Os corpos contam que terão morrido em horas próximas, mas quem morreu primeiro, ou como tudo se precipitou, ali ficará enterrado, num sigilo que as paredes não irão violar.

No café mais próximo suspira-se e murmura-se: "Ninguém devia morrer sozinho." Manuela e Ludgero não o quiseram. À hora que tinham planeado, àquela hora em ponto, depois do último cigarro, fumado ali mesmo, na cama, engoliram com a ajuda de um copo de água uma dose brutal de comprimidos. Terão passado dias, talvez meses, a planear aquele momento. Não haveria mais depressão, nem dores, nem doenças, nem famílias ausentes, nem solidão.

Terá sido Ludgero, que deixara escapar em conversa com Sandra já ter experimentado os comprimidos da mulher, a estudar a dose certa para não falhar. Manuela planeara tudo para que pudessem ser encontrados quatro dias depois, dia em que voltariam da tal viagem, ainda a tempo de ser enterrada "compostinha", como gostara de ver a irmã na hora da morte. Aqui o plano falhou.

A janela continua aberta, com o cortinado do lado de fora. A caixa de correio está a abarrotar, com publicidade, cartas do hospital para ela e da União de Créditos Bancários para ele. As luzes, que tinham ficado acesas depois da visita dos inspectores, foram finalmente desligadas porque um irmão de Manuela se encarregou de desligar o quadro, do lado de fora do apartamento. Lá dentro, nunca mais ninguém entrou.

Manuela e Ludgero fechavam sempre a porta por dentro, mesmo quando estavam em casa. No dia em que a polícia chegou estava apenas no trinco.

 

 

(2ª parte)

 

Por Sílvia Caneco publicado em 9 Out 2013 no I



publicado por Dito assim às 19:45
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NELLA MAISSA - 100 ANOS EM 2014

EM 7 DE MAIO A PIANISTA NELLA MAISSA COMPLETARÁ 100 ANOS

 

 

No ano em que celebra um século de vida, recordamos quase 80 anos de carreira, dedicados à divulgação do repertório português

Os dedos. Os ouvidos. Os olhos. Os sentidos cederam ao silêncio por força da idade, mas os clássicos nunca se calam no quarto 219 da Casa do Artista, apesar do sono agora perpétuo do piano. A pianista a quem se devem as primeiras audições de peças fundamentais da música portuguesa contemporânea mantém um cérebro vivaz e a memória que os quase 100 anos permitem. De tal forma que dispensa intermediários na marcação deste encontro. Nascida em Turim no seio de uma família sefardita, a 7 de Maio de 1914, instalou-se em Lisboa em 1939, depois de uma viagem de barco com partida de Génova. Para trás ficava a Itália de Mussolini e o teclado da guerra, impróprio para o mais talentoso dos intérpretes. Em 2008, aos 94 anos, deu o seu último concerto, na Casa da Música, no Porto.

Todos estes anos e mantém o sotaque italiano.

Sim, nem nunca o vou perder. Com toda a gente é assim. É uma coisa que nunca se perde.

Há quantos anos saiu de Itália?

Quase há 80. No dia 7 de Maio vou fazer 100 anos.

Como era a vida na sua Turim quase há um século?

Muito diferente. Sabe, 100 anos fazem muita diferença. A vida mudou e a maior parte das pessoas que conhecia morreram. Ia à escola a pé, todos os dias, quatro vezes. Ia de manhã, vinha almoçar e voltava. A empregada acompanhava-me. Sou filha única. Estudava, comia, tomava o lanche, ia para a cama. Não havia televisão, rádio, não havia nada.

Como se distraía?

Vivia-se assim e estávamos habituados. Eu estudava, comia, ia para a cama. Já gostava de música. Aos cinco anos comecei a estudar piano. Tem de se começar cedo, senão os dedos ficam rijos. Era uma vida muito severa. Agora, os meninos fazem tanta coisa...

A música fazia parte da casa?

Não, a minha mãe estava apenas ligada à música vagamente. Eu é que sempre estudei música, dos cinco anos em diante. Fazia a escola e à tarde estudava o piano.

Porquê a escolha do piano?

Não sabia porquê. Aos cinco anos mandaram-me estudá-lo e eu estudei-o. Com o piano, não podia ir passear para a rua com ele. Aos cinco anos, não se sabe nada.

Que faziam os seus pais?

O meu pai era engenheiro e a minha mãe trabalhava em casa, como todas as mulheres naquela altura. As senhoras não tinham emprego.

Gostavam de a ver na música?

Sim, estudei o piano todo. Aos 14 anos diplomei-me, depois fiz o liceu e entrei na universidade. Fiz o curso de Direito e depois, aos 22 anos, casei-me. O meu marido era de nacionalidade portuguesa e quando veio a guerra viemos para cá, para ver como era este país que não conhecia. O meu marido não tinha feito o serviço militar e tivemos de ficar cá mais um ano à espera que o cumprisse. Quando passou esse tempo, tinha rebentado a guerra e acabámos por ficar cá toda a vida.

Como se conheceram?

Frequentávamos a mesma casa de reuniões. Passou tanto tempo... Chamava- -se Renato Maissa. Morreu na década de 50; era muito novo. Tinha um cancro no intestino. Na altura, não se tratava. Foi um horror. Depois vivi sozinha. Foi difícil. O piano foi uma ajuda; foi a minha vida.

Vida que passou por Parma antes de Lisboa.

O meu pai foi trabalhar para Parma. Inscrevi-me na universidade. Fui para Direito por capricho.

Por capricho?

Toda a gente queria ir para o curso de letras e eu quis ser diferente. Acabei o curso, mas depois escolhi música. Participei num concurso de piano em Varsóvia e fiquei entusiasmada. Nunca quis ser advogada.

Já tinha dado concertos antes?

Já tinha feito outros em Itália. Foi em Varsóvia que ouvi os grandes nomes e percebi que era aquilo que queria fazer. Mas o primeiro grande concerto foi no conservatório de Turim, quando voltei de Varsóvia. Acho que correu bem. Era muito nova e não me lembro bem.

Era muito crítica do seu trabalho?

Ao longo da vida aconteceu, às vezes, não gostar tanto de um concerto. Somos críticos de nós mesmos. Sempre fui autodidacta e estudava muito sozinha. Quando me dava prazer, tocava bem.

O piano foi presença em casa desde sempre?

Sim, claro. Acho que sempre houve um piano em casa. A minha mãe cantava de vez em quando.

Mas quando chega a Portugal, no final da década de 30, vê-se privada de piano uns dois anos.

Sim, os móveis levaram dois anos a chegar a Portugal. Estive sem tocar. Quando chegaram, tinha sempre dois pianos ou três em casa. Fui ao conservatório de cá, apresentei-me e fui logo contratada. Fiquei a fazer parte da vida musical portuguesa. No início não tínhamos dinheiro, não tínhamos nada. Não foi fácil.

Gostou do país quando chegou?

Acho que sim. Foi há tantos anos... Cheguei em Novembro de 39. Fomos viver para o Hotel Tivoli. Não tínhamos casa. A primeira casa foi na Rua Fialho de Almeida. Estive lá até 1960. O meu marido comprou uma fábrica, uma fundição de metais.

Tornou-se portuguesa por casamento. O seu marido gostava de escutar o piano em casa?

Não. Ele trabalhava por sua conta, vinha a casa almoçar, jantar. Saíamos à noite, mas cada qual fazia a sua vida. Ele não era músico e não se metia na música. Tinha de ouvir o piano em casa, como toda a gente tinha de ouvir.

Passados todos estes anos, sente-se mais portuguesa ou sempre italiana?

Eu sou internacional [risos]. Sou uma cidadã europeia.

Com um papel importante a divulgar compositores portugueses.

Sim, depois de algum tempo comecei a dar concertos com a Orquestra Sinfónica, com Pedro de Freitas Branco. Nos anos 70 celebrou-se o aniversário de João Domingos Bomtempo e fui a Londres ver as suas coisas ao museu de música. Comecei a divulgá-lo. Gravei a sua obra completa. Fiz uma grande divulgação da música portuguesa. Gravei Lopes Graça, Freitas Branco, Armando Fernandes, que me escreveram concertos e dedicaram sonatas. Ninguém conhecia. Os portugueses não gostam.

Porquê esse distanciamento?

As pessoas gostam pouco das coisas de casa, gostam mais do que vem de fora. Também tocava outros nomes, sempre, mas tocava muitos portugueses.

Com um certo prejuízo da sua popularidade?

Com certeza. Mas nunca pensei nisso. Tocava o que me parecia bem. Não era a única mulher. Havia a Helena Costa, do Porto, mais conhecida que eu. Muita gente tocava. Mas a vida era complicada para todos os artistas nacionais. São muito maltratados. Os artistas estrangeiros são mais bem pagos.

Recorda-se dos primeiros cachês?

Não faço ideia. Sempre fui muito pouco ligada ao dinheiro. Não me importava muito. Ganhava pouco. Era mais bem tratada na Fundação Gulbenkian.

Os seus antigos vizinhos da Rodrigo da Fonseca ainda se lembram de a ouvir tocar.

Tocava todos os dias. Estudava porque tinha de ser. O piano tem de ser estudado todos os dias. Não se pode parar. Era sempre que estava em Lisboa. Quando viajava, tocava fora. Fui a Macau, Brasil, EUA, Europa toda, Rússia. Corri o mundo.

E nunca deu aulas. Nunca quis ensinar?

Não. Não estava interessada nisso. Como sabiam que eu não dava aulas, também não me pediam. Todo o meu tempo era para eu estudar. Estudei cinco anos com o Vianna da Motta, até à sua morte. Cada qual me ensinava qualquer coisa. Aprendemos com todos, e nunca se aprende o bastante. Com certeza, ainda podia aprender mais.

O que é preciso para se ser um bom pianista?

Ah, é preciso muita vontade, muita paciência e muito amor. Muita disciplina. Era a minha vida.

Deu o seu último concerto em 2008, na Casa da Música.

No Porto, sim. Não sabia que era a última vez. Quando voltei, tive uma queda, fui operada, e nunca mais toquei. Toquei ainda uns anos, mas apenas para mim.

Continua a ter um piano aqui no quarto.

Sim, mas há dois anos que não toco. Ouço muito mal, não vejo, e as mãos não são muito hábeis. Comprei tantos pianos... Este foi o último. Tinha um piano de cauda, muito bom, e este, na sala. Num quarto interior tinha outro piano, quando queria estudar de noite. Tocava em surdina para não maçar os outros.

Quando começou a perder a visão?

Em 1976. Apercebi-me uma vez, a ler o jornal. O meu médico disse-me para ir o mais depressa possível à Suíça tratar-me. Tinha a retina aberta. Foi uma coisa muito lenta. Fui perdendo a visão pouco a pouco, até chegar a este ponto.

Ao ponto de não conseguir jogar o seu bridge, como lamentava há pouco.

Pois, não consigo fazer nada. Para tocar, conseguia tocar alguma coisa de memória, mas tinha de ver a música.

Chegou a tocar aqui na Casa do Artista?

Estou aqui há cinco anos. Cheguei a tocar, mas só para mim. Gostava muito de tocar Bach, Beethoven, música romântica, Debussy, Ravel. Muita coisa. As moderníssimas, não gosto tanto. Ouvia jazz de vez em quando, mas a minha música sempre foi música clássica.

Voltou a Itália depois da vinda para Portugal?

Sim, todos os anos. Passava lá o Verão. Tenho lá família. Tinha tios, primos. Ia passar o Agosto a casa dos meus avós. Voltei lá depois da guerra. Durante a guerra fui a Espanha, Inglaterra, mas Itália não.

Qual foi o primeiro concerto em Portugal?

Foi no sindicato dos músicos. Apresentei-me ao público como me apresentava nos outros países. Uma vez toquei no conservatório uma sonata de Beethoven e o "Ludus Tonalis" de Hindemith. Gostei muito desse concerto. Eram poucas pessoas e acho que correu muito bem.

Antes dos três pianos, como ocupava o seu tempo?

Tinha muito que fazer, cuidar da casa, do meu filho. Tinha de viver num país que não conhecia.

Foi fácil aprender o português?

Sim, mas nunca aprendi muito bem. Depois de dois meses, falava como falo agora, e nunca mais fiz progressos [risos]. Tive umas lições. É uma língua latina, parecida com italiano.

Ainda fala italiano com alguém?

Sim, claro, até com as minhas netas, com amigos.

E sobre música, tema que mais lhe interessa?

Adoro falar de música. Falo todos os dias com a Elisa Lamas sobre música. Ela fala-me dos alunos que tem e eu dos que não tenho. A rádio é a minha única companhia. A música de agora interessa-me pouco. Ainda vivo no século passado.

 

 

Por Maria Ramos Silva
publicado em 1 Fev 2014 no jornal I

 



publicado por Dito assim às 19:29
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UM TEXTO NO JORNAL I DA AUTORIA DE SÍLVIA CANECO

Até que a morte não nos separe. Manuela e Ludgero decidiram morrer juntos

 

 

Quando a polícia entrou no apartamento, havia já 18 dias que o casal estaria morto na cama. Tudo indica que terão premeditado o fim a dois Nenhum sinal de vida. Corpos: escuros, com presença de larvas, sombras alienígenas do que terão sido. Hora e causa do óbito: por apurar. Quando a polícia e os bombeiros entraram finalmente no apartamento e encontraram os corpos na cama, a filha de Manuela, de que ninguém sabe o nome, trancou-se no carro, enorme nos seus remorsos e culpa, e dali não saiu. Do outro lado da rua, Sandra e Paulo, que tinham passado dias e dias a ligar para a PSP a pedir socorro, mal viram um agente vir na sua direcção tiveram a certeza: "Eles estão mortos." Manuela e Ludgero Matias, ela com pouco mais de 60 anos, ele já nos 70, tinham sido vistos pela última vez havia 18 dias. Nesse sábado, ao fim da manhã, Manuela chegou ao café da esquina com um novo corte e uma nova cor de cabelo, mais avermelhada, mas desta vez pouco falou. A Sandra e Paulo pediu apenas que cuidassem do Dusty, o seu pequeno cão branco arraçado de minitoy, até quarta-feira, data em que ela e o marido regressariam de uns dias em casa do irmão. Entregou-lhes um saco, passou a trela para a mão de Paulo e abalou sem uma festa no cachorro. Os dois entreolharam--se: "Então mas não nos pergunta se podemos ficar com o cão?" E outra vez, com Manuela já fora do ângulo de visão: "Que estranho. O Ludgero não sai de casa há anos, nunca quer sair." A surpresa adensou-se ainda mais quando chegaram a casa e abriram o saco: lá dentro estavam todas as malhas e roupas de Inverno que Manuela comprara para proteger o Dusty do frio. Mas porquê, se naqueles dias de Setembro o calor ainda nem dera tréguas? "O melhor", incentivou Paulo, "é ires lá a casa, Sandra, ver se está tudo bem." Horas depois, Sandra bateu à porta de Manuela e Ludgero, com a desculpa de que faltavam brinquedos para o Dusty. Ludgero, com quem Sandra tinha frequentes picardias, estava nervoso e saiu a disparar: "Não demores muito, nem mais um minuto, que o irmão da Manela deve estar aí a chegar." Manuela estava especialmente fria, de cabeça baixa. Outra pergunta ríspida de Ludgero, ainda vestido de pijama e roupão: "A minha mulher pagou-te tudo?" Há uns meses que Sandra fazia limpezas lá em casa e passava a ferro. Acenou que sim, mas era mentira. Manuela, com receio de que o marido a castigasse pela má gestão do dinheiro, levantou ligeiramente os olhos e uniu as mãos como quem diz "Deus te abençoe". Na sala, entre um sofá e outro, Sandra viu uma mala castanha, de napa, mas estranhou que estivesse tão mole e pouco recta. Quando chegou a casa exclamou: "Paulo, tenho a certeza: a mala estava vazia." Porque estariam a querer afastá-los? Manuela e Ludgero, saídos de casamentos despedaçados, conheceram-se em Odivelas. Uns anos depois de vida em comum, ela perdoou-lhe as noites no Cais do Sodré, acreditou nas promessas de fidelidade eterna e aceitou casar-se. Há oito anos decidiram mudar-se para outra freguesia dormitório e compraram um apartamento ali, em Santo António dos Cavaleiros, Loures. Consta que Manuela queria fazer obras em casa mas a tralha que acumulava era tanta que a única solução que encontrou para não ter de levar tudo para um armazém foi convencer o marido a comprar uma nova. No prédio de 15 andares e 90 apartamentos, onde pelo menos 180 pessoas entravam e saíam diariamente, poucos sabiam quem eram, de onde vinham, se tinham ou não familiares. "Isto é um mundo cão, claro que eles passavam despercebidos", atira uma moradora. Havia até quem não soubesse os seus nomes, como a vizinha da porta ao lado, que, ao fim do 18.o dia colada à morte, não aguentou mais o odor que dava vómitos e correu para a esquadra da polícia a pedir ajuda. Já se tinha perguntado "se o senhor estaria doente", estranhando não o ver da janela, sentado à mesa da cozinha, a jantar às 18h30 em ponto, como era sagrado. Ou por que razão, não parando de chover há dias, a janela do quarto continuava aberta dia e noite. Lucília, a vizinha do rés-do-chão que todos tratam por Chila, ainda frequentou a casa do casal e foi companhia no café, mas já vão longe esses tempos. À medida que Manuela ia ficando mais em baixo, ia-se afastando, em trajectória inversa às fragilidades da vizinha do 4.o andar. "Já era doente e comecei a sentir que estava a viver muito a vida dela." Há anos que Manuela frequentava consultas de psiquiatria e vivia sob o efeito de antidepressivos, calmantes e ansiolíticos. Segundo Sandra, terá tentado duas ou três vezes o suicídio, vezes suficientes para a filha achar que era "egoísta". "Achava que a tristeza dela devia vir de algum lado. Mas ela não contava, não se abria. Sugeri que fosse a um psicólogo e ela disse-me: vou lá contar a minha vida a alguém", lamenta Lucília. Numa das últimas idas à psiquiatra, Manuela saiu com nova receita: doses cavalares de Diplexil, Morfex e Diazepam - um antiepiléptico e dois ansiolíticos. Os vizinhos recordam-na a cair pelos cantos, a andar de lado, com os movimentos presos ou arrastando a voz. A perda de equilíbrio provocada pelos medicamentos chegou mesmo a despertar na vizinhança a tese de que andaria alcoolizada. Segundo Sandra, Manuela deveria estar a fazer um tratamento que funciona como uma espécie de semicoma: horas e horas a dormir. O problema é que não ficava em casa e Ludgero, cansado de a ver aos caídos, lhe ia cortando a medicação. A depressão obrigou Manuela a pôr baixa médica atrás de baixa médica. Forçada a voltar ao trabalho numa clínica do IPO de Lisboa, não resistiu à sonolência provocada pelos barbitúricos: à terceira vez que adormeceu ao volante, o carro foi directo para a sucata. Continuou a trabalhar mas ia de táxi: o salário nem dava para pagar essa despesa. A SOLIDÃO À medida que os anos iam passando, eram cada vez menos os que batiam à porta do 4.oC. Lucília afastou- -se. A filha de Ludgero, que as vizinhas dizem viver em Inglaterra, nunca ali foi e a filha de Manuela, se foi, nunca foi vista. Ela, mesmo sob o efeito de sedativos, não dispensava a ida ao café, ao supermercado e à boutique do bairro: era consumista compulsiva, a ponto de comprar até o que não lhe servia. O armário era repetitivo: calças e camisolas largas, acetinadas. Pelos cantos, como engordara muito com os medicamentos, já só lamentava não encontrar camisolas de algodão para o seu tamanho. Ele, reformado da banca, há para aí três ou quatro anos que só era visto à noite, a passear o cão na praça junto ao prédio. Passava os dias em casa, a grelhar entrecosto para o jantar - a única refeição que faziam -, ou a ouvir as músicas do VH1, deitado na cama, cinza do cigarro a cair e a esburacar os lençóis. Só quando precisava de fazer exames abria uma excepção à clausura. Os vizinhos suspeitavam que teria um problema nos intestinos, porque andava amarelo e de barriga inchada. A Sandra e Paulo, os poucos que eram visita do casal e viam Ludgero correr para a casa de banho oito vezes numa noite, contaram que os resultados dos exames foram inconclusivos. Os amigos sugeriram um teste do HIV: nunca chegaram a saber o resultado. Estavam sentados numa mesa do café da esquina quando o casal Matias pôs os olhos neles. Um dia o cão era tema de conversa e de afagos e no outro estavam a jantar lá em casa. "Eles connosco eram pessoas normais, estavam felizes", recorda Sandra, há mais de uma hora a chorar ininterruptamente. O frigorífico e a arca estavam carregados de comida mas, sempre que eram convidados, o jantar era o mesmo, acabado de comprar no supermercado: entrecosto grelhado e batatas pré-fritas congeladas. Manuela dizia que assim era mais rápido, não precisava de descongelar. Sandra e Paulo já reviravam os olhos ao entrecosto, mas, como gostavam da companhia, nunca recusaram. Depois do jantar, ficavam até às 3, 4 da manhã, a falar sobre a vida ou a ter discussões esotéricas: Ludgero e Manuela acreditavam na vida para além da morte. Sandra e Paulo eram os companheiros mais improváveis: uns bons 20 ou 25 mais novos, viviam entalados no prédio de habitação social mais problemático da zona e estavam longe de ter boa fama na vizinhança. Aparentemente, à superfície, nada havia de semelhante entre um casal e outro. Apesar disso, nunca ninguém chegou tão próximo.

 

(1ª parte)

 

Por Sílvia Caneco publicado em 9 Out 2013 no I



publicado por Dito assim às 19:04
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Sexta-feira, 7 de Março de 2014
NOVAIS TEIXEIRA, UM CIDADÃO DO MUNDO
Joaquim Novais Teixeira de Guimarães para o Mundo

Por vezes, por caprichos do acaso, temos a felicidade de deparar com certos percursos pessoais que, pela sua intensidade e diversidade intervencionista, mais parecem resultar da súmula da vida de cinco ou seis pessoas.
Joaquim Novais Teixeira é um desses melhores exemplos. Ao longo de sete décadas, este vimaranense foi escritor, jornalista, activista político, crítico literário e cinéfilo, programador cultural, comentador de política internacional e administrador.

Para além desta intensidade intervencionista, o percurso deste vimaranense conheceu também uma diversidade geográfica muito rara para figuras do seu tempo. Motivado por questões profissionais ou pessoais, Novais Teixeira radicou-se em diferentes países europeus e da América latina, viajando ainda por diversos destinos no Norte de África, circunstâncias que marcaram decisivamente a sua forma de pensar e de entender o mundo seu contemporâneo.

Nascido em Guimarães, a 21 de Abril de 1899, foi aí que Joaquim Novais Teixeira iniciou os seus estudos e completou o curso dos liceus. Ainda jovem, revelou uma irreverência e inconformidade intelectual ao fundar alguns jornais de pequena dimensão e de duração esporádica.

Em 1916 muda-se para o Porto, onde prossegue os estudos no Instituto Industrial e Comercial. Nessa cidade funda o jornal literário A Luz, uma experiência mais consciente, e publica a sua primeira obra poética, Pinhas Bravas. Destas experiências juvenis aparentemente inconsequente ressalta uma interessante simbiose que iria conduzir a sua intervenção futura: uma intensa vontade de intervenção cívica e um forte espírito criativo.

Em 1919 emigra para Espanha, onde é funcionário bancário e colabora em vários jornais madrilenos. Apesar de distante, Novais Teixeira mantém relações com o seu país, exercendo funções de correspondente do Comércio do Porto e do Diário de Notícias e de colaborador literário da Ilustração e do Magazine Bertrand.

Contudo, no país vizinho, o vimaranense inicia uma nova rede de amizades e relações pessoais. Ávido de uma intervenção cívica, Novais Teixeira conheceu os melhores círculos intelectuais e artísticos madrilenos, convivendo com figuras cimeiras da cultura espanhola como Federico Garcia Llorca, Miguel de Unamuno, Pio Baroja, Diez Canedo, Manuel Azaña e Valle-Inclán. Entre outras amizades pessoais, destaque para uma relação privilegiada com o cineasta Luís Buñuel.

A sua aproximação aos círculos republicano e progressista permite-lhe ascender profissionalmente com a implantação da República espanhola. Novais Teixeira começou por ser nomeado Director do Serviço de Imprensa Estrangeira na Presidência do Ministério do governo republicano e, mais tarde, foi nomeado pelo Presidente Manuel Azaña para chefe do Serviço de Imprensa Espanhola.

Durante o período da guerra civil espanhola, foi conselheiro de Largo Caballero e viveu os episódios militares da retirada de Valência, Barcelona e Figueras, derrotas republicanas decisivas no desfecho do conflito. Em 1938, perante a iminência da vitória franquista em Espanha e o seu envolvimento na resistência republicana, Novais Teixeira procura refúgio em França.

Durante a sua estada em Espanha, e particularmente desde a vigência da ditadura militar de 1926, o jornalista procurou apoiar, através da solidariedade e assistência, alguns refugiados oposicionistas dos governos vigentes em Portugal. Em Agosto de 1940, acompanhando outros exilados políticos portugueses, tenta regressar a Portugal, mas é detido na fronteira pelas autoridades espanholas. Vários vultos do jornalismo e das letras espanholas subscrevem uma representação em seu favor.

Em Fevereiro de 1941, face às situações políticas e sociais verificadas em Portugal (regime salazarista), em Espanha (regime franquista) e em França (ocupação das tropas de Hitler), Novais Teixeira vê-se obrigado a procurar exílio no Rio de Janeiro.

Radicado no Brasil, Novais Teixeira tira proveito da sua experiência acumulada e da sua intervenção cívica contra os regimes autoritários para trabalhar e dirigir a Interamericana, um importante serviço de propaganda dos Aliados no Brasil.

Dentro do mesmo espírito, prossegue a sua actividade profissional na organização do Serviço Francês de Informação, um importante organismo dedicado ao intercâmbio cultural franco-brasileiro. Para além destas actividades profissionais, ainda encontra tempo para colaborar com os jornais Diário de Notícias, Jornal e Jornal Carioca.

Em Abril de 1948, finda a Segunda Guerra Mundial, regressa a França. Em Paris, o jornalista desempenha agora as funções de representante dos jornais Globo (Rio de Janeiro) e Estado de São Paulo (São Paulo), para além de outros jornais e revistas do interior do Brasil. Nas suas novas funções, Novais Teixeira destaca-se sobretudo no comentário da política internacional, efectuando importantes viagens a Itália, Suiça, Tunísia, Argélia e Marrocos.

No entanto, não deixa esmorecer a sua paixão artística e intelectual e exercita a crítica de arte e de cinema, assumindo a cobertura de importantes certames internacionais como a Bienal de Veneza e os festivais de cinema de Cannes, Veneza, Locarno e Berlim.

Tal como havia sucedido anos antes em Madrid e na sua primeira passagem por Paris, Novais Teixeira participou de forma activa em diversos círculos culturais e artísticos. Relaciona-se de forma mais intensa com várias figuras das artes e letras portuguesas radicadas em França, nomeadamente o casal Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes, o historiador de arte José-Augusto França e o artista surrealista António Dacosta, seu amigo íntimo.

Entretanto, o prestígio pessoal de Novais Teixeira dá-lhe uma destacada notoriedade em certos sectores da sociedade francesa. Em 1952, é convidado para integrar o júri do prestigiado Festival de Cinema de Cannes, e dois anos depois é convidado a organizar a representação estrangeira do Festival Internacional de São Paulo.

A reputação profissional conquistada junto dos colegas de profissão e o seu activismo político permitiram que presidisse à direcção da Fédération Internationale de la Presse Cinématographique (FIPRESCI).

Paralelamente, Novais Teixeira desempenhou um papel fundamental na divulgação dos novos movimentos cinematográficos brasileiro e português em França. Amigo de Nelson Pereira dos Santos, figura de proa do designado “cinema nôvo brasileiro”, o jornalista contribuiu para a promoção de várias obras de jovens cineastas brasileiros integrados no movimento criativo que despontou em finais da década de 50.

De um modo idêntico, Novais Teixeira ajudou a divulgar algumas tendências renovadoras no cinema português. O primeiro beneficiário foi Manoel de Oliveira, cuja obra O Pintor e a Cidade, aquando da sua estreia no Festival de Veneza, foi promovida pelo jornalista vimaranense junto de nomes de referência na cinematografia internacional como André Bazin.

Mais tarde, em pleno período de afirmação internacional do designado “novo cinema português”, Novais Teixeira colaborou com o crítico francês Jean Gili na organização da IX edição do Festival de Cinema de Nice, dedicado nesse ano ao Jeune Cinema Portugais (Março de 1972) e acompanhou com interesse o percurso de algumas obras desse movimento.

Em 1958, Novais Teixeira teve finalmente a possibilidade de regressar a Portugal pela primeira vez desde que partira em 1919. Quatro décadas depois de partir como mais um desconhecido, Novais Teixeira voltava como um prestigiado jornalista e promotor da cultura portuguesa além fronteiras. Daí em diante, Novais Teixeira regressou com regularidade a Portugal, quer para compromissos profissionais como para deleite pessoal.

Em Dezembro de 1972, Joaquim Novais Teixeira morre em Paris.

(Texto da autoria de Paulo Cunha, no Diário do Minho de 15.9.2004)


publicado por Dito assim às 20:23
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A SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA
Como teria sido a estreia da "Sagração da Primavera" em Paris em 1913 num filme da BBC.
O bailado começa aos 48:00 m.

http://www.youtube.com/watch?v=JcZ7lfdhVQw#t=3450



publicado por Dito assim às 18:08
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O POLITICAMENTE CORRECTO
UM POUCO DE ALEGRIA COM A LEITURA DESTE TEXTO.



Desde que os americanos se lembraram de começar a chamar aos pretos 'afro-americanos',com vista a acabar com as raças por via gramatical, isto tem sido um fartote pegado! As criadas dos anos 70 passaram a 'empregadas domésticas' e preparam-se agora para receber a menção de 'auxiliares de apoio doméstico' .
De igual modo, extinguiram-se nas escolas os 'contínuos' que passaram todos a 'auxiliares da acção educativa' e agora são 'assistentes operacionais'.
Os vendedores de medicamentos, com alguma prosápia, tratam-se por 'delegados de informação médica'.
E pelo mesmo processo transmudaram-se os caixeiros-viajantes em 'técnicos de vendas'.
O aborto eufemizou-se em 'interrupção voluntária da gravidez';
Os gangs étnicos são 'grupos de jovens'
Os operários fizeram-se de repente 'colaboradores';
As fábricas, essas, vistas de dentro são 'unidades produtivas' e vistas da estranja são 'centros de decisão nacionais'.
O analfabetismo desapareceu da crosta portuguesa, cedendo o passo à 'iliteracia' galopante. Desapareceram dos comboios as 1.ª e 2.ª classes, para não ferir a susceptibilidade social das massas hierarquizadas, mas por imperscrutáveis necessidades de tesouraria continuam a cobrar-se preços distintos nas classes 'Conforto' e 'Turística'.
A Ágata, rainha do pimba, cantava chorosa: «Sou mãe solteira...» ; agora, se quiser acompanhar os novos tempos, deve alterar a letra da pungente melodia: «Tenho uma família monoparental...» - eis o novo verso da cançoneta, se quiser fazer jus à modernidade impante.
Aquietadas pela televisão, já se não vêem por aí aos pinotes crianças irrequietas e «terroristas»; diz-se modernamente que têm um 'comportamento disfuncional hiperactivo' Do mesmo modo, e para felicidade dos 'encarregados de educação' , os brilhantes programas escolares extinguiram os alunos cábulas; tais estudantes serão, quando muito, 'crianças de desenvolvimento instável'.
Ainda há cegos, infelizmente. Mas como a palavra fosse considerada desagradável e até aviltante, quem não vê é considerado 'invisual'. (O termo é gramaticalmente impróprio, como impróprio seria chamar inauditivos aos surdos - mas o 'politicamente correcto' marimba-se para as regras gramaticais...)
As p.... passaram a ser 'senhoras de alterne'.
Para compor o ramalhete e se darem ares, as gentes cultas da praça desbocam-se em 'implementações', 'posturas pró-activas', 'políticas fracturantes' e outros barbarismos da linguagem. E assim linguajamos o Português, vagueando perdidos entre a «correcção política» e o novo-riquismo linguístico.
Estamos "tramados" com este 'novo português'; não admira que o pessoal tenha cada vez mais esgotamentos e stress. Já não se diz o que se pensa, tem de se pensar o que se diz de forma 'politicamente correcta'.

(Maria Helena Sacadura Cabral)


publicado por Dito assim às 18:03
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