Literatura, opiniões, memórias, autobiografias, e demais diletantices.
Domingo, 24 de Abril de 2016
Mais uma crónica do reacionário minhoto.

A imodéstia familiar no Alto Minho (I)

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O Dr. Paulo convenceu-se de que a loucura não é uma invenção recente.  No tempo em que não eram tão visíveis os ódios em que a Europa havia de ficar emparedada, o Tio Alberto fez várias viagens a Constantinopla, tendo sobrevivido razoavelmente a todas elas. A Tia Benedita, matriarca dos Homem, nunca acreditou que a cidade tivesse mudado o seu nome para Istambul.

 

Naquela altura, o Tio Alberto tinha já há muito ultrapassado a barreira do "solteirão amável" (os trinta anos), e inclinava-se vertiginosamente para a fronteira do "solteirão incorrigível" (os cinquenta). A Tia Benedita (protegida do bolchevismo, da imoralidade e da República no velho casarão de Ponte de Lima) reconhecia que havia naquele homem maduro todos os sinais de um valdevinos que seguira até tarde o guião dos solteirões de família – um por geração –, prolongando a sua boa saúde até mais tarde do que o costume, mas evitando empregá-la naquilo que seria normal: um casamento, uma família, uma vida virtuosa.

 

A ideia de que o Tio Alberto não tinha uma "vida virtuosa" não se baseava em factos, mas numa conclusão tirada de evidências: aos cinquenta, um homem com boa situação profissional (o Tio Alberto dedicava-lhe nove meses do ano) e duas cópias de Watteau nas paredes da sala de estar da sua casa de São Pedro de Arcos, não devia "andar por aí", sujeito às intempéries da tentação. A posse de um Super Sport Villa d’Este 2500, o Alfa Romeo da época, também não ajudava a compor o retrato.

 

O relato das aventuras do Tio Alberto é um bálsamo para os serões de Moledo, quando as visitas querem saber se houve alguém minimamente vivo na família. O Dr. Paulo, agora que desistiu da leitura dos clássicos russos e que morigerou as visitas à sua gastrenterologista, defende – com a energia dos incautos – que devíamos, num destes fins-de-semana, desenhar uma genealogia da família. A tarefa é impossível, porque um nome, isoladamente, é apenas um nome – e na família os nomes foram e voltaram, e tornaram a ir até um dia regressarem.

 

Nesses tempos em que a virtude e a modéstia familiares eram obrigações públicas, o Tio Alberto descia para a Praça de Caminha ao volante do seu carro, e eu e os meus irmãos disputávamos velozes regatas pelo Minho abaixo, sob o olhar suspeito da Guarda Fiscal, a quem o velho Doutor Homem, meu pai, assegurava que não éramos contrabandistas de Cerveira. Enfim, o Dr. Paulo convenceu-se de que a loucura não é uma invenção recente.

 

 



publicado por Dito assim às 19:46
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Uma crónica de José Cutileiro no seu "Retrovisor"

Em April, águas mil.

 

 

 

Gente mais lida do que o comum dos mortais deste maravilhoso país que tão generosamente acolhia no seu seio o meu chorado A. B. Kotter (Ei Bi para os amigos), inglês da Várzea de Colares - mais lida e mais provinciana (os piores sãos que acham que o não são, como disparou um dia a Teresa Gouveia, irritada já não me lembro com qual deles) quando, diante dos incómodos e contradições pós-equinociais do quarto mês do ano, gosta mais de dizer “Abril é o mês mais cruel” e, de preferência, dizê-lo em inglês - April is the cruellest month - papagueando a primeira e mais célebre linha do mais célebre poema moderno do século XX na língua do Bardo, The Waste Land, publicado em Londres em 1922, escrito por americano de Missouri com tal mania de ser inglês que se naturalizou, protestante, na Church of England mais precisamente depois da vinda para Inglaterra, e com tanta vontade de ser Católico Apostólico Romano que só a liturgia da High Church o contentava, educado em Harvard e vindo continuar os seus estudos de lógica formal em Merton College, Oxford, visitando também muito Bertrand Russell em Londres, que não só lhe ensinou lógica mas também lhe seduziu a mulher, muito neurótica, a quem aventuras como essa infelizmente não salvaram nem o casamento nem a saúde e acabou sozinha num hospício, enquanto o marido se foi inclinando cada vez mais para o vers libre (a mãe, numa carta a Russell, contava não dar nada por essa fantasia e esperava que ela passasse deixando o terreno à reflexão filosófica: quando T.S. Eliot veio a receber o prémio Nobel da literatura em 1948 já a Senhora tinha morrido) acompanhando muito com outro americano, Ezra Pound - que viraria fascista antes da Segunda Guerra Mundial havendo sido internado – cuja mestria poética é universalmente reconhecida, reviu e emendouThe Waste Land que Eliot lhe dedicou chamando-lhe Il miglior fabbro.

 

Chuva e sol no dia de ontem levaram às ruminações acima, com 8 horas passadas no aeroporto de Lisboa, chamado singelamente da Portela (o meu nome preferido é Figo Maduro, mais aerogare do que aeroporto porque as pistas são as da Portela). Chegara a Lisboa na véspera com saída de Zaventem, aeroporto de Bruxelas, por corredores e salas improvisadas e erigidas muito depressa depois das atrocidades de 22 de Março, com pessoal dedicadíssimo que ia tratando uma a um, com vigilância atenciosa, quem rumava aos aviões. Menos de um quinto das descolagens diárias normais estão programadas e pôr a zona de embarques novamente como nova poderá levar nove meses. Depois do que se soubera de ineficácias belgas, a caminho e logo a seguir aos ataques terroristas, entrei no Airbus da TAP com admiração respeitosa e grata por aquela gente.

 

Ontem, à volta, balde de água fria. Sobre a diligência do resto do pessoal e perante indignação geral no país, os controladores aéreos belgas meteram-se a greves intermitentes que já estavam programadas. A espécie humana dá uma no cravo, outra na ferradura.

 



publicado por Dito assim às 17:47
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OS DERROTADOS DE ABRIL

OS DERROTADOS DE ABRIL

Preferiam a guerra, os anos de cinza,
A morte devagar distribuída
E os muros pintados a cal.

E eles pensam: terá voltado a nossa hora?
Mas é tudo tão diferente.
O dinheiro nunca teve cor, mas agora
Não tem mundo nem maneiras.

Seja como for, por caminhos ínvios
Ou por mecanismos que não se entendem,
Mas que filhos de gente conhecida explicam,
Ainda que fiquemos sem o nosso dinheiro,
O importante é que os pobres vão perder a grimpa e o arrojo:
O nosso tempo voltou.

(Luís Filipe Castro Mendes, JL de 29.5.13)

[Um poema do novo Ministro da Cultura que postei no meu blogue "Dito Assim"]



publicado por Dito assim às 17:19
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