Literatura, opiniões, memórias, autobiografias, e demais diletantices.
Sexta-feira, 3 de Maio de 2013
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Depois, para mais agravar a vesânia dos zelos, entremetera-se a pendência política, tendo o amante infeliz disparado uma vez sobre o Pires, sem lhe acertar.

Perpetrado o crime, o Pires continuou, sem embargo dos autos e encoime à boca cheia, como se não tivesse no código uma conta em aberto. Não era homem que por isso faltasse a feiras e mercados, e a onde lhe dava a real gana. Conheciam-lhe o cavalo pelo bater do trote, a descair sobre uma das mãos lesa dum alfaiate antigo, e pelo arreio, sela de campino com xaimel de pele de cabra, e o chumaço das pistolas mal dissimuladas nos coldres. No negócio de comprar e vender reses, umas que abatia, outras que traficava, tanto estava hoje aqui como amanhã em casa do demo. O sentimento da impunidade incutia-lhe uma audácia de mais efeito social ainda que o próprio salvo-conduto, toda a gente se acobardando diante do homem sem medo nem frio nos olhos. As autoridades da comarca, desapoiadas ou temerosas também, faziam vista grossa.

Esse mesmo ano, logo em seguida ao mercado de S. Francisco, porque acabassem os fumos da bebedeira de toldar-lhe a razão ou fosse a altura da sua sanha de cão danado produzir onda, foi depois da ceia bater à porta do velho Luís Gomes, pai do Leandro.

- Quem está lá?

- Praças do Nove de Lamego – respondeu contrafazendo a voz.

- Praças de Lamego…?! A que vêm a esta hora?...

- Aboletar-nos. Vamos num destacamento para Trancoso, e o regedor, a mim e ao camarada que aqui está, destinou-nos esta casa.

O velho mandou a mulher abrir a porta.

Mal esta se escancarou, o Pires e dois sicários seus, Luís Minhoto e Nuno da Silva, caíram sobre eles de facalhão alçado. Nem lhes deram tempo de soltar um ai. O Gomes tombou banhado em sangue para nunca mais se erguer; mas a mulher, ainda que crivada de golpes e tão à beira da sepultura que lhe puseram a extrema-unção, tinha sete fôlegos como os gatos e escapou. De pouco diferiu a sua hora. Estava por uma noite de Dezembro sentada à lareira com sua sobrinha Constança de Jesus a fiar na roca, sentiu bater à aldraba. Schut,  ouviste?... Ficaram ambas transidas, o sangue gelado nas veias, a voz presa na garganta. As pancadas repetiram-se a manso, pousadas, em surdina, como quem se penaliza de dar alarme ou despertar gente que dorme. Jesus! Se ao menos tivessem ânimo para gritar?! Mas nem isso. Daí a pouco ouviram rumor no telhado. Perceberam que desviavam telhas no forro, que era de latas e não de escama-peixe. E, sideradas, a cabeça metida no avental, à maneira do avestruz, o Pires e seus quadrilheiros ali as vieram chacinar com o maior sangue-frio, a punhal e à moca, como quem extermina animais daninhos.

   Um frémito de horror percorreu a comarca. A taça extravasava. Mas se todos juravam pela pele do facínora, ninguém se atrevia a tocar-lhe com um dedo molhado. Ele, pelo contrário, parecia redobrar de desplante. Além de manter o estabelecimento aberto, com suas amiudadas idas e vindas à vila, mercas e vendas em plena feira, blasonava forte e feio da justiça e das autoridades.

   Na capital do distrito, todavia, surda, calculadamente preparavam-lhe a cama. Tinham-no, por fás e nefás, como implicado na morte do Espadagão, tenente da Guarda Nacional, quando este virara a casaca de realista feroz para liberal não menos assanhado. O estilo com que o homicídio fora perpetrado traía a mão do Pires da Rua, mais ponto, menos virgula. A uma hora adiantada da noite, batiam à porta do cacique:

   - Ó da casa!

 



publicado por Dito assim às 19:01
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