Literatura, opiniões, memórias, autobiografias, e demais diletantices.
Sexta-feira, 3 de Maio de 2013
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- Quem é?

- Sou eu, compadre! Venho dizer-lhe que tome cautela, está outra vez por cima D. Miguel...

- Compadre...?! Diga o nome...

    Gaguejou o visitante. E logo o Espadagão, que andava de pé atrás, pressentindo cilada, correu à janela, no intuito de se inteirar do que havia ou de se evadir. Topou a residência cercada. Deitou a mão à espada, a espada de larga folha e copos à francesa que lhe valera a alcunha de guerra, tinha tantas vezes no sangue dos malhados. Mas já a porta saltava nos gonzos e uma pistola, contando com homem apostado a vender cara a vida, se lhe despejava no peito. Mal ferido, o Justo Leal de Longa, o Chico de Sequeiros, e parece que o Pires, meteram-no no meio e conduziram-no para o monte de Santo Estevão, que fica numa eminência das Arnas, através das ruas desertas e das casas silenciosas – se bem que espreitassem sete olhos dos buracos das fechaduras e pelas reixas das janelas. À frente marchava o coveiro da paróquia, que tinham ido à fina força arrancar da cama. No teso, à luz das lanternas, abriram uma cova, tão funda que o Espadagão coubesse nela de pé. Depois meteram-no dentro e, como quem planta uma árvore, deitaram terra à volta, tendo o cuidado de o deixar vivo com a cabeça de fora.

   Arruçava a alba quando o trabalhinho chegou a seu termo. Então os quadrilheiros, depois de queimar uma cigarrada a ganhar tempo que abrisse a manhã, foram pelos morouços de pedra escolher malhas. Cada um volveu com aquela que se lhe afigurou mais a jeito para o chinquilho e, tomando a cabeça do Espadagão por fito, cabeça em que rolavam olhos pávidos e medonhos, dentro das órbitas arroxadas pelo sopro da noite eterna, jogaram aos pontos o mata-bicho de aguardente e rabo de bacalhau, que se propunham ir petiscar a Sernancelhe.

   Se o Pires não fora o maquinador de tal atrocidade, pois que o Justo lhe levava as lampas, fora um dos comparsas. No Governo Civil de Viseu assacaram-lhe as culpas todas.

 E na manhã de 5 de Dezembro de 1839, quando abria a porta do açougue, uma patrulha que tinha chegado nas envoltas da noite e esperara emboscada num quintal, saltou-lhe ao gasnete e nem sequer o deixou estrebuchar. Transferiram-no para o castelo de Lamego da cadeia de Moimenta, que não oferecia a garantia requerida contra o assalto da quadrilha, planeado como uma operação de guerra e assim anunciado. Mas já foi na Comarca que o julgaram. O juiz, bacharel Joaquim Machado Ferreira Brandão, não só repeliu a grossa peita – por modos uma fortuna – com que pretenderam suborná-lo, como se mostrou imperturbável perante as ameaças de morte que lhe choveram em casa por muitas vias. E o requisitório que lavrou contra o réu foi de tal ordem que os jurados, quer os movesse o medo, quer fossem de índole a ceder à corrupção, não tiveram campo para fugir à inexorável rectibilidade dos quesitos. Foi o Pires sentenciado à pena última.

   Debalde o réu apelou para a segunda instância, o seu tanto confiado nos políticos de que fora o homem-lige. A relação indeferiu o pedido de recurso. Tampouco se ergueu o dedo clemente de el-rei. Ninguém terçou armas por ele. Clamava misericórdia no vácuo. Agarrou-se, como derradeiro salvatério, à esperança de que os seus parciais, acaudilhados pelo Minhoto, que andava a monte, investissem com a escolta que houvesse de conduzi-lo ao cadafalso. Um golpe de mão bem urdido, executado por gente audaciosa, podia surtir efeito. Para isso pôs à disposição do lugar-tenente somas avultadas com que desfalcou a fortuna que era de monta. Atrás de umas somas vieram outras e vendeu, empenhou, troquilhou. O problema da sua libertação cavou um sorvedoiro sem fundo. Os seus ficaram na penúria, mas deixá-lo, a questão era poder dar às trancas e pôr-se em Espanha. O Minhoto, que andara a assalariar quantos sicários havia no norte de Portugal, jurava pela luz dos seus olhos que no caminho para a forca havia de ser arrancado das unhas dos soldados ou ele britaria a cabeça contra uma laja. Fiado em tais protestos, foi sem náusea de maior que na manhã de 8 de Maio de 1843 – três anos transcorridos sobre o seu derradeiro crime – vestiu a alva de penitenciado e estendeu as mãos aos anjinhos.

   De Moimenta da Beira, pelos Arcozelos, à vila da Rua, onde se faria a execução, são cinco quilómetros bem medidos entre soutos e moitas, altos e baixos de fraco pendor, mas que obrigam a circuitos de certa demora. Estava uma manhã agreste, baça, bastarda duma Primavera peca e serôdia fugida ao provérbio: Em Maio, quem não tem basta-lhe o saio.

O Pires ia descalço, e manhosamente se bem que a reclusão prolongada o houvesse tornado animal flácido e cativo, batia o dente e lastimava-se, manobrando de modo a retardar a marcha.

Um soldado, mais impaciente ou abelhudo, picou-o com a baioneta.

O Pires voltou-se para ele a arruaçar:

- Cão, filho de cão, maldito sejas!

O alferes assentou-lhe por duas vezes a espada nos lombos.

Os cinco quilómetros de caminho levaram tempo imenso a per-

correr. Tanto em Arcozelo da Torre como em o do Cabo, havia

grande concurso de gente. Todos queriam ver o sicário, uns por cu-

riosidade, outros por espírito de revindicta, que a muitos afrontara.

Quis beber e pediu água a uma mulher que vinha da fonte. A mulher

hesitou um instante. E, decidindo-se, chegou o cântaro aos lábios se-

cos, rugosos.

- Deus lhe pague! - rosnou ele.

A mulher entornou o resto da água e girou a enchê-lo de novo

à fonte com visível fisionomia de nojo. Quando deixaram as últimas

casas dos Arcozelos, a escolta redobrou de cuidados. De quando em

quando, pela frente, divisavam-se magotes de povo, e o comandante,

sobreavisado pelos zunzuns que corriam, mandava explorar o terreno

e só avançava quando os batedores lhe vinham com a parte de que

não havia novidade. Mesmo assim as praças marchavam de gatilho

aperrado. Os olhares do Pires de resto eram significativos. A cada

passo, subiam a vertente que alçaprema Nacomba, esquadrinhando

os bosques, fusgando as devesas, na ânsia dum socorro que tardava

a chegar.

Ao alcançar as primeiras casas da Rua, teatro das suas perversida-

des, ia visivelmente sucumbido. As pernas, que estafavam um poldro

na carreira, emperravam-lhe. Em despeito da ,atmosfera álgida, caia-

-lhe o suor pela face abaixo em gordas e pútridas bagadas. O curioso

é que ele a chegar, o burburinho da grande mó de povo amainou co-

mo por encanto. Estava toda a gente hirta e muda, de olhos nele,

e aquela atitude de contenção e pasmo perante o seu calvário gelou-o ..

Uma onda de frio marinhou-lhe pela medula, para se espraiar depois

pelo corpo todo. O comandante da escolta deu conta e vendo-o páli-

do, convencido de que ia desmaiar, ordenou para a praça mais próxima:

- Deita a mão a esse homem!

 



publicado por Dito assim às 19:06
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