Literatura, opiniões, memórias, autobiografias, e demais diletantices.
Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2016
SER EUROPEU
Apesar dos donos da nossa Europa nos desiludirem, ainda penso assim, como Marcelo Duarte Mathias, e por isso repito até à exaustão estes príncipios: 
 
 
SER EUROPEU (Marcelo Duarte Mathias)
 

Em Maio de 2013, transcrevi:

 

SER EUROPEU É PREFERIR:

- as catedrais às pirâmides;

- Bruges a Gioto;

- o mar Egeu às Caraíbas;

- o sentido estético ao sentido prático;

- as interrogações às certezas;

- o cepticismo ao fanatismo;

- a diversidade à uniformização;

- a dissidência à ortodoxia;

- a liberdade às verdades;

- a sabedoria ao saber;

- a síntese à retórica;

- as palavras às estatísticas;

- a imprensa à televisão;

- a literatura à tecnocracia;

- o indivíduo às massas;

- a lucidez da razão às profecias sem razão;

- as heranças aos testamentos;

- as memórias dispersas à memória única;

- o vinho à Coca-Cola;

- o valor dos homens ao valor do dinheiro;

- a visão de conjunto à visão parcelar;

- a inquietação ao optimismo;

- o sonho à diversão;

- a contradição ao apaziguamento;

- os cafés e esplanadas aos bancos e seguradoras;

- o curso do Danúbio ao do Amazonas;

- Porto fino a Acapulco;

- Santorini a Punta del Este;

- o lago Cuomo ao lago Titicaca;

- a Grécia de Péricles à China da dinastia Han;

- o Império austro-húngaro à Turquia dos sultanatos;

- a Roma imperial ao Japão dos sarnurais;

- o Spectator ao New Yorker;

- Margaret Thatcher a Indira Gandhi;

- De Chirico e Delvaux a Portinari e Andy Warhol;

- Fellini e Truffaut a Spielberg e Tarantino;

- Malaparte e Yourcenar a John Dos Passos e Kawabata;

- Mouzinho de Albuquerque a Pancho Villa;

- Garibaldi a Sun-Yat-Tsen;

- Marco Aurélio a Confúcio;

- por fim, uma noção equilibrada do tempo, nem estática nem acelerada.

Em suma, a história da Europa à história universal.


(Marcelo Duarte Mathias in Diário de Paris)

 



publicado por Dito assim às 17:18
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MONTAIGNE E O VINHO

Apesar de considerar a embriaguez “um vício grosseiro e brutal”, que destrói o espírito e entorpece o corpo, Montaigne considera a bebida um vício que custa menos à consciência do que outros. Assim, admite o gosto pelo vinho e sua utilização como acompanhamento às refeições. Para ele, como deve ser o paladar do bom bebedor?

Para ser um bom bebedor, não se deve ter gosto refinado, é preciso fugir da delicadeza do paladar e de uma seleção cuidadosa do vinho, pois, se nos acostumamos ao prazer de beber um bom vinho, necessariamente iremos nos deparar com o desprazer de beber os vinhos ruins. É preciso, portanto, “conservar o gosto mais despretensioso e mais livre”. A melhor maneira de apreciar o vinho é com a comida, pois esta o completa. Segundo Montaigne, o deus do vinho, Dioniso, devolve aos homens a alegria e restitui a juventude aos velhos, fornece temperança à alma e saúde ao corpo.



publicado por Dito assim às 16:44
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Segunda-feira, 3 de Agosto de 2015
...

Lições básicas de economia política

 

O velho Doutor Homem, meu pai, passou a maior parte da sua vida a tratar de segredos de direito bancário, uma especialidade pouco romântica, pouco popular e nada literária. Eu, seu filho mais velho, segui as suas pisadas por preguiça – na época, o sistema bancário tinha alguma coisa do século XIX, e os seus escritórios e dependências albergavam retratos de gente ilustre que o tinha inaugurado.

 

O que acontece, pelas minhas memórias – e pelas que roubei ao velho Doutor Homem, meu pai –, é que desde meados do século XIX Portugal pouco mudou. Tentei explicar à minha sobrinha Maria Luísa que devia ler Oliveira Martins com o argumento de que o seu ‘Portugal Contemporâneo’ era uma novidade editorial de fôlego. Ela compreendeu a ironia: o país já não era uma terra de velhos e austeros comerciantes ou prestamistas, mas continuava a ser administrado pelos herdeiros do Constitucionalismo que ganharam dinheiro com as obras públicas de Fontes Pereira de Melo, que ganharam dinheiro com o comércio de víveres e de influência durante a República, que ganharam dinheiro com o regime do dr. Salazar e que, finalmente, retomaram os seus direitos históricos com a democracia de hoje. Esta visão, simples e injusta, merece-lhe aplauso. Por instantes viu-me com um votante potencial do Bloco de Esquerda, preparado para aclamar o casamento entre cavalheiros para fumar haxixe nas dunas ao fundo dos pinhais de Moledo.

Remediado e manhoso, tanto como ignorante e vaidoso, o Portugal do Constitucionalismo prolongou-se até hoje. A Tia Benedita, a matriarca miguelista da família, que não estudou economia nem chegou a conhecer o FMI, percebeu que ao velho regime dos seus avós se tinha sucedido um casamento de conveniência entre os negócios do Estado e os dos prestamistas e negociantes, o que garantiria uma alegre corrupção colectiva – mas sem alma, sem espírito e sem travão a emprestar-lhe alguma decência.

 

Os Homem de várias gerações compreenderam esta arquitectura e viveram nas suas margens, dedicados a sobreviver e a cuidar do colesterol alto, mal ele foi inventado. Pertenciam a outro mundo. Ganhavam a vida, guardavam os retratos e mantiveram reunidas as peças de Companhia da Índias no velho casarão de Ponte de Lima. Mas não confiavam. Maria Luísa, a esquerdista da família, vê nisto um sinal de honradez delicada. Não é bem isso; é, muito mais, o pessimismo ardente de uma família de derrotados que vê o seu país entregue a comerciantes dos sertões. Não é tão nobre, evidentemente, mas serve para dizer que já contávamos com esta gente.

 

(Crónica de Francisco José Viegas no blogue "António de Sousa Homem" de 2012)



publicado por Dito assim às 11:35
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Terça-feira, 28 de Julho de 2015
FADO, FUTEBOL E FÁTIMA

Claro. Sempre. Como sempre. Ou como no tempo do Salazar, que é o tempo que corresponde ao nosso sempre, o tempo da depressão. Tópico identitário. No tempo de Salazar como neste nosso tempo da informática, da comunicação global, da mundialização do capital.
Fado, futebol e Fátima, não pode deixar de ser. Os valores cimeiros da depressão nacional.
Fado, futebol e Fátima é quando o pessoal chega à conclusão de que mais nada vale a pena, e que só vale a pena aquilo que não vale mesmo a pena.
Fado, futebol e Fátima serão sempre os ícones do progresso português, quer dizer, do desvario ou das lágrimas do nosso desenvolvimento cultural, nulo, pífio, irrelevante, em Salazar como em Cavaco Silva – entre os dois, a enorme diferença está no quadro conjuntural e histórico de vida e de poderes que um e outro disfrutaram.
Fado futebol e Fátima quando as gentes chegam à conclusão fatal de que não podem confiar nos seus representantes institucionais, não podem confiar nos seus homens políticos. Ou pior ainda: quando, não podendo confiar nos homens, não pode confiar na política mesma como forma de acorrer às suas carências atávicas.
Fado, futebol e Fátima quando a política e os políticos, em lugar de servirem interesses e anseios de quem os elege, têm por missão piorar, se possível, a vida de quem os elege em privilégio da protecção a quem lhes pagou para serem políticos – e nesse ponto, digam o que disserem e pensem o que pensarem, Salazar era melhor.
Fado, futebol e Fátima: quem ligava ao futebol nos dias seguintes ao advento do 25 de Abril? Quem foi o campeão nacional de 1974, 1975, e por aí adiante, até aos anos 80? Assim, de repente, já poucos se lembram. E muito menos se lembram das vicissitudes desses campeonatos. Que árbitros prejudicaram o Sporting (clube cujo capitulo principal da sua História são os prejuízos causados pelos árbitros), que árbitros beneficiaram o Benfica (clube que fez a sua gloriosa História à custa do benefício das arbitragens), de que metal eram feitos os apitos dos árbitros que actuaram nos jogos do F.C. Porto (clube cuja história futebolística até aos anos 80 não era nenhuma)? Ninguém se lembra. Ou poucos se lembram. (Ah, o Eusébio!) O futebol só voltará a incendiar corações pelos anos 80, extinta a revolução, desvanecida a esperança.
Fado, futebol e Fátima. Nos primeiros alentos do 25 de Abril que novos fadistas estavam em voga? Não sei. Não me lembro. Lembro-me dos de sempre, então vilipendiados por sinistras associações ao regime. Amália, ainda, então, e ferozmente atacada como fascista. Carlos do Carmo, em boa hora revelado como corajoso e indefectível homem de esquerda. E mais uns quantos.
Fado, futebol e Fátima. Nos primeiros tempos do 25 de Abril quem ia a pé a Fátima?
Fado, futebol e Fátima, hoje. Obras de restauro na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, novos fadistas que brotam como cogumelos, jovens jogadores acabados de sair da formação que valem milhões no mercado internacional.
Quantos diários desportivos com preponderância dada ao futebol? Quantas horas semanais de televisão dedicadas ao futebol? Número de peregrinos e cobertura mediática das cerimónias de Fátima tendencialmente em crescendo – não comparável todavia em mediatismo ao futebol (o rei dos media) e ao fado (o vice-rei), é preciso que se diga.
Quantos Carminho, Camané, Ana Moura, Gisela João, Ricardo Ribeiro, Zambujo, Aldina Duarte, Cuca Roseta, Carla Pires, Ana Lains, Joana Amendoeira, Helder Moutinho, e mais umas boas dezenas deles em plena carreira ou em rápida ascensão?
Fado, futebol e Fátima, ou a miséria das convicções cívicas e racionais de um país. Ou triunfo da fé.
Fé nas plangências guitarrais e nos trinados vocais como som de identidade nacional, e dos inerentes conformismo e desistência.
Fé no Jorge Jesus, no Pinto da Costa, no Nani para a vitória do clube da "nossa fé", emplastro Leão indicado para as mais profundas dores da existência portuguesa.
Fé na Nossa Senhora, que em 1917 começou por nos avisar dos perigos do comunismo, mas que nos alvores da crise financeira nada teve para nos dizer.
Fé na Nossa Senhora como última entidade em condições de aliviar a miséria das famílias, a penúria dos reformados, a depressão dos desempregados. Fé na Nossa Senhora que se apresenta hoje a Portugal como a instituição que se avantaja em prestígio e confiança aos partidos, aos políticos, e por uma só razão, quero crer: a sua inexistência.


(Do blogue “Questões de Moral” de Joel Costa)



publicado por Dito assim às 18:22
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Sexta-feira, 24 de Julho de 2015
O QUE ANDO A LER
Desde ontem, estou a deliciar-me com mais um diário, recém-publicado, de um escritor que também é diplomata. Trata-se do "Diário da Abuxarda" (2007-2014), do meu colega e amigo Marcello Duarte Mathias, um dos grandes prosadores portugueses. Os seus diários, sob a epígrafe "No devagar depressa dos tempos", levam-nos pelos pretextos para reflexão que encontrou nas suas errâncias profissionais, de Nova Iorque a Paris, da Índia a Buenos Aires e a Brasília, com Bruxelas e muita Lisboa (e Abuxarda) pelo meio.

 

Uma visão do mundo por vezes desencantada - e frequentemente diferente da minha -, às vezes a roçar um nostálgico elegante (sei que ele não deve gostar disto), sempre imbuída de um saudável patriotismo, de quem girou mundo com o ideal de Portugal na bagagem. Um livro que, mais do que tributário da experiência de um homem culto, respira a erudição de quem adora a vida e aprecia as coisas boas que ela nos traz - os amigos, as artes e os momentos - coisa que sempre entendemos melhor quando alguma vez tivemos de ultrapassar certos sobressaltos. Um livro que se saboreia como uma bebida requintada, que nos convida a pequenos goles, neste caso podendo sempre recuar nas páginas e na memória dos sabores.

 

Há anos, o Marcello publicou um pequeno volume, que intitulou de "Brevíssimo Inventário". É uma obra difícil de classificar, mas se se disser que é uma recolha de magníficos aforismos talvez fique mais próximo da verdade. Foi minha prenda de Natal para muita gente e ainda hoje o ofereço a amigos e conhecidos que aprecio e que o podem apreciar.

 

Termino com duas citações deste Diário que me dizem bastante. Uma de Carlos Lacerda, que Marcello cita: "Viver não deixa muito tempo disponível". A segunda é do próprio Marcello Duarte Mathias: "Hoje é fácil ser-se inconformista: basta andar de gravata". 

 

Do blogue "Duas ou três coisas" de Francisco Seixas da Costa


publicado por Dito assim às 12:43
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Domingo, 16 de Novembro de 2014
Vale a pena ler livros novos?

O assunto é interessantíssimo para quem gosta de ler. Somos bombardeados com novos autores, novos livros, prémios. Que fazer?

José Pacheco Pereira discorre sobre o problema neste artigo do Público de ontem:

 

Vale a pena ler livros novos?

 

Sendo nós finitos, estamos limitados e temos de fazer escolhas. Se eu pudesse ler tudo, não havia problema.

Todas as vezes que lemos um livro, deixamos de ler outro. É mesmo assim, positivo e negativo, para os poucos milhares de livros que podemos ler, mesmo sendo grande leitores. Já uma vez fiz este cálculo e na melhor das hipóteses, numa vida de grande leitor, dificilmente se pode ultrapassar os 4000-5000 livros e já é contar por cima. Ler, quer dizer, ler mesmo, não consultar a badana, nem folhear o índice, nem ler a contracapa. E neste cálculo estão livros de poesia pequenos e grandes romances, uns dando para os outros o número de páginas e o tempo da leitura. 4000-5000 livros é para a Mensagem de Pessoa e para a Montanha Mágica de Thomas Mann.

Embora neste cálculo eu inclua todos os livros, ficção, poesia, ensaio, história, biografia, etc., há um problema que penso ser interessante colocar para os livros de criação, ficção, poesia, teatro e similares – vale a pena ler livros novos? Ou, dito de outra maneira, se não temos tempo para ler o património fundamental da literatura dos últimos 2500 anos, vale a pena perder tempo a ler livros “novos”, a esmagadora maioria dos quais desaparece da memória literária a alta velocidade, porque, no fundo, nada tinham a acrescentar de novo ao património anterior? Recentemente um artigo de Tim Parks na New York Review of Books levanta esta questão, o que me leva a retomá-la, até porque já escrevi sobre ela há vários anos.

Já uma vez coloquei essa pergunta de modo biográfico, dizendo que, por regra, não lia nada que não tivesse aguentado dez, quinze anos, de “necessidade de leitura”. Isso provocou reacções muito negativas. Eu, se fosse autor de ficção contemporânea, não acharia graça nenhuma em ser substituído na leitura nem que fosse por Balzac ou Tolstoi. Compreendo bem as reacções, mas elas não iludem o problema: vale a pena ler livros novos de ficção, poesia, teatro, etc.? Não está tudo já escrito e reescrito com qualidade já testada e com real ligação com o que de mais indispensável existe na nossa história cultural? Como podemos viver sem Ibsen, Molière, Bocaccio, Stendhal, Cervantes, Safo, Virgílio, mesmo quando já não temos tempo para os ler como merecem sem também já escolhermos entre Proust ou Claudel, ou Dickens e Conrad, ou Nabokov e Updike? Sim, porque mesmo num cânone muito limitado, e tendo nós que ler outras coisas, sejam manuais escolares, sejam livros técnicos, sejam memórias, sejam livros de actualidade, o tempo não chega. É um problema que tem sentido colocar, porque, sendo nós finitos, estamos limitados e temos de fazer escolhas. Se eu pudesse ler tudo, não havia problema. Tem de existir por isso argumentos a favor de ler o “novo” por testar e perder assim algo do antigo já testado.

Vejamos os argumentos. Deixemos de lado a história do autor fundamental, mas ignorado pelo seu tempo. Podia estar a deixar passar algo de muito importante apenas porque é do meu tempo e ninguém notou essa importância a não ser que seja lido agora. O autor ignorado é, em grande parte, um mito romântico, porque não há assim tantos casos de autores fundamentais, que tivessem passado despercebidos, nem que seja pela elite intelectual que depois os transporta para o cânone. Mas admitindo que há, e que eu com este critério o ignoraria, trata-se de uma excepção à regra, que deixa intocado o problema.

Outro argumento a favor de se ler “o que sai” é o argumento de Virginia Woolf que Parks cita, a possibilidade de ler de forma lustral, virgem, um autor que não transporta consigo o peso dos julgamentos do passado, e sobre o qual posso fazer um julgamento meu, “descobri-lo”. É um argumento que pode atrair os críticos literários, ou os que são profissionais da leitura crítica, mas não me entusiasma, porque o número de “descobertas” será naturalmente muito escasso em relação ao que tenho de ler, ou ao que deixo de ler. Este último aspecto é sempre para mim muito relevante, embora compreenda que ele pese mais num leitor velho do que num leitor novo.

Depois há um outro argumento, que é igualmente sério, que nos leva a perguntar: mas por que razão tenho de só ler clássicos, coisas a sério, literatura pura e dura, em vez de ler o que me apetece, romances light, literatura cor-de-rosa, livros de auto-ajuda, recordações de gente do jet-set, memórias do Cristiano Ronaldo, ou o livro do momento sobre o espantoso crime ocorrido em Freixo-de-Espada à Cinta? Ou não ler, que não é morte de homem.

Este argumento é imbatível, cada um pode ler o que lhe apetecer, a mais lúdica e ligeira das literaturas, e isso é também ler. Penso, aliás, que este “ler” comunica mais do que se pensa com a leitura criativa, nobre e “cultural”. Mas penso que este é um argumento forte no plano da liberdade individual, do gosto pela leitura, sem os constrangimentos que tem o intelectual em querer (ou ter) de encontrar na literatura… literatura. E a minha pergunta é uma típica pergunta de intelectual, elitista e minoritária, mas mesmo assim, insisto, com sentido: vale a pena ler livros novos?

O mais forte argumento a favor de ler livros novos é a perda, nessa não leitura, de muitos aspectos sobre a sensibilidade dos tempos de hoje que Homero, Dante, Shakespeare, Leopardi, ou Mann não podiam ter. O passado, queira-se ou não, até por ser passado, é mais “doméstico”, já acabou, não tem mais nada para dar, já sabemos o que aconteceu, precisamos de algo diferente, logo, precisamos de mais presente. Insisto que considero este o melhor argumento a favor de ler livros novos, mas também não me chega.

É um argumento sério, porque implica um confronto com a contemporaneidade que tem um elemento autobiográfico: eu também vivi esses tempos, logo, vejo-os de forma diferente, não leio da mesma maneira. A frase de Hartley sobre o “passado como um país estrangeiro” poderia também ser sobre o “presente” – nada é mais “estrangeiro”, até porque eu vivo lá.

Quando leio o livro de Coetzee, Disgrace (A Desgraça), eu percebo o drama e a culpabilidade dos brancos na África do Sul numa dimensão a que nunca chegaria sem o livro. E sobre a sombra de uma culpabilidade colectiva, que faz aceitar a violência criminal dos negros, não podia ser escrito antes do século XX com esta intensidade dramática e ao mesmo tempo soft, como se não fosse violência, mas um “estado”. Nem a literatura do Holocausto trata da mesma coisa, embora também com ela se possa fazer o mesmo exercício de indispensabilidade do presente que o livro de Coetzee permite.

O mesmo se passa na novela de Philip Roth The Dying Animal (O Animal Moribundo), um retrato único do desejo e da morte, que podia ser uma novela de Tchekov, mas não é. É outra coisa, há ali uma dimensão sobre a doença, sobre a devastação do corpo, sobre a idade, sobre os intelectuais, que só um judeu de Nova Jérsia podia ter escrito, no século XX. A descrição da doença é algo que os contemporâneos fazem de uma forma única, até porque a sua ecologia médica, hospitalar, subjectiva, não tem paralelo no passado. Não é a Dama das Camélias, nem a tuberculose no sanatório de Davos, é o cancro.

Estes exemplos são a favor de ler alguns livros “novos”, mas não são um argumento a favor de ler por sistema livros novos. E não me chega, porque não tenho tempo, nem agora, nem nunca. É como aquele argumento terminal da inevitabilidade dos nossos dias: “Não há dinheiro. Qual destas palavras não percebe?” Eu diria para os livros: “Não há tempo. Qual destas palavras não percebe?” E por isso escolho não ler, por regra, livros novos, o que significa que sou um ignorante muito especial. 

 



publicado por Dito assim às 14:09
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Sexta-feira, 24 de Outubro de 2014
O rei dos Elfos D.338 de Schubert

 

O rei dos Elfos D.338 de Schubert, segundo poema de Goethe.
Anne Sofie von Otter com a Orquestra de Câmara da Europa sob direcção de Claudio Abbado. Gravação de 2003. Versão original para voz e piano. Versão orquestrada por Hector Berlioz. De estarrecer.

 

Quem cavalga tão tarde à noite e ao vento?
É o pai com o seu filho;
Ele segura o rapaz bem nos seus braços,
Ele segura-o com firmeza, ele mantém-o quente.

 

"Meu filho, por que escondes tão receosamente o teu rosto?"
"Pai, não vês o rei dos elfos?
O rei dos elfos com coroa e cauda?"
"Meu filho, é o rasto de névoa."

 

"Tu querida criança, vem, anda comigo!
Maravilhosos jogos eu jogarei contigo,
Muitas coloridas flores crescem sobre a margem,
A minha mãe tem muitas túnicas de oiro."

 

"Meu pai, meu pai, não ouves
O que o rei dos elfos baixinho me promete?"
"Sossega, sossega, meu filho,
É o vento que murmura nas folhas secas."

 

"Queres, belo rapaz, ir comigo?
As minhas filhas cuidarão de ti;
As minhas filhas conduzem a dança nocturna,
E embalarão, dançarão e cantarão para tu adormeceres.

 

"Meu pai, meu pai, não vês ali
As filhas do rei dos elfos no local sombrio?"
"Meu filho, meu filho, eu vejo perfeitamente,
São os velhos, tão cinzentos, salgueiros."

 

Eu amo-te, encanta-me a tua linda figura,
E se não vieres voluntariamente, eu usarei da força."
"Meu pai, meu pai, ele agarra-me agora,
O rei dos elfos magoou-me!"



publicado por Dito assim às 19:46
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Evocação

Hesitei muito em publicar esta foto pois sou daqueles que não adiro ao exibicionismo do Facebook. Mas como o que publico é visto por meia dúzia de pessoas amigas aqui vai.

Em Dezembro de 1953,  fiz a primeira comunhão na capela que não sei se ainda existe na Casa da Quintã do meu avô Belmiro. A foto é nas escadas da Casa e são os meus pais óbviamente. Meu pai faria hoje 95 anos. Haverá algo de evocação nisto?

Dez.de 1953.jpg

 



publicado por Dito assim às 18:16
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Deutschland über alles?
22.10.14

 

Economist Merkel.jpg

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

Deutschland über alles?

 

 

As duas grandes guerras da primeira metade do século XX foram manifestações trágicas da impossibilidade de fazer conviver Alemanha unida e forte com as outras grandes potências do Velho Mundo. A chamada construção europeia começada com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço — destinada a impedir que Alemanha e França se fossem armando uma contra a outra — a seguir à rendição incondicional de Berlim em 1945 foi congeminada por democratas franceses e antinazis alemães (mormente Robert Schuman e Jean Monnet, do lado de cá do Reno, e Konrad Adenauer, do lado de lá) longe das disposições draconianas da paz de Versailles de 1919 que haviam ajudado Hitler a subir ao poder. Durante meio século fez caminho seguro e chegámos à União Europeia.

 

Na Europa Ocidental, o progresso parecia imparável. As circunstâncias eram propícias. Medo salutar de Estaline provocara a invenção das Comunidades Europeias e da OTAN e, depois dele morto, a União Soviética continuara a meter respeito; os Estados Unidos garantiam guarda-chuva nuclear e, primus inter pares na Aliança Atlântica, desimaginavam os aliados das suas brigas históricas. A Alemanha, primeiro de rastos e ocupada militarmente e a seguir dividida (De Gaulle dizia gostar tanto dela que preferia que houvesse duas) não tinha poder político mesmo depois da República Federal — folgada por limitação de despesas militares e por perdão de dívidas de guerra — ter construído grande poder económico (o milagre alemão).

 

A reunificação conseguida por Kohl com licença de Gorbachev, apadrinhamento de Bush e susto de Mitterrand e Thatcher, mudou as coisas. Tornou a haver poder político alemão. Pela primeira vez, famosamente no fim de 1991 durante a crise jugoslava, impondo reconhecimento prematuro da independência da Croácia aos seus onze parceiros da CEE. E desde então, sem tréguas, até ao beco onde a zona euro está metida. A crise começada em 2008, exacerbada em 2010 pela constatação do estado calamitoso das finanças gregas, acordou veia moralista implacável em Berlim. Desde os anos 20 do século XX, para os alemães, a inflação é pecado mortal. Para os franceses, uma pitada dela é o sal da economia. Como a Alemanha é mais forte — apesar de infraestruturas em péssimo estado, burocracia paralisante e defesa pelas ruas da amargura — tem vindo a impor austeridade aos seus parceiros do sul, empobrecendo toda a zona euro e empurrando-nos para a deflação. Se Merkel for iluminada pela visão de Bismark, de Kohl ou de Schmidt dará guinada para o crescimento. Se não for, pela terceira vez em 100 anos a Alemanha, mesmo em paz, terá sido incapaz de dar bom viver aos vizinhos.

 

NB – Amiga cujo saber prezo acha que o mal é outro. As nações são ovos cozidos e com ovos cozidos não se fazem omeletes (De Gaulle dixit). Fazem-se bons pratos; muitos se cozinharam desde 1957. Mas o euro, tal como concebido e imposto, foi conto do vigário que lesou muita gente e espevitou forças centrífugas na União. Quiçá.

 



publicado por Dito assim às 18:13
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Quinta-feira, 16 de Outubro de 2014
Os olhos férteis

Desculpem a insistência mas lá volto às crónicas de José Cutileiro no blogue “Retrovisor”.
Lucidez, perspectiva iluminada , conhecimento histórico, linguagem de espirito, português impecável. Visão de um diplomata conhecedor dos meandros da História, ajuda-nos a compreender este mundo que nos rodeia. Vemos a árvore e a floresta.

 

Em 1640, Miguel de Vasconcellos, valido da Duquesa de Mântua, regente do Reino, morreu atirado de uma janela. Em 1945, Philippe Pétain, herói da guerra de catorze, viu a sua pena de morte comutada por De Gaulle e veio a finar-se em prisão perpétua (todos os anos Mitterand, já no Eliseu, mandava pôr um ramo de flores na sua campa no dia do armistício de 1918). Também em 1945, Vidkun Quisling — que, ao governar a sua Noruega natal por conta do ocupante nazi, deu nome genérico a esses traidores ambíguos — foi fuzilado numa prisão de Oslo. Guerras de independência desapareceram da Europa de hoje. Agora, fronteiras e soberanias esfumam-se e o domínio de Berlim sobre as decisões fiscais de outras capitais, impondo políticas de austeridade que estão a estalar pelas costuras e quase a matar o cavalo do inglês, é tão grande que amigo sábio chama à zona euro Alemanha Magna. Até quando?

 

Há dias Matteo Renzi, primeiro-ministro italiano, rapaz quase sempre pimpão demais para meu gosto, acertou em cheio no alvo. Acossado, como outros governantes do sul, por visão teutónica paranoide que faz da inflação pecado mortal — disposta a correr o risco, presumivelmente virtuoso, de deflação — disse: “Prefiro uma França com 4% de défice a uma França com Marine Le Pen presidente.” A questão é essa e é isso que a Alemanha parece incapaz de perceber. Convicta da bondade dos seus valores; de que, no seu seio, nazismo, fascismo, nacionalismo agressivo não brotarão de novo e incapaz de perceber outros povos, insiste em considerar diferenças entre o norte e o sul como combate entre o bem e o mal que será ganho quando nós, meridionais, reconhecermos o nosso erro. Entretanto a deflação está à porta, a crise morde a própria Alemanha e, com coro que vai da Casa Branca ao FMI e ao Papa a pedir estímulos à economia e não só prestações para o tonel das Danaides de dívidas impagáveis talvez Merkel e Schäuble se desimaginem da cruzada moralizante antes que esta arruíne de vez a Europa.

 

Não foram eles que desregularam demais o sistema financeiro nem foram eles que fizeram do euro nossa moeda sem o cuidado devido. A culpa da crise foi doutros — mas é culpa deles que o remédio escolhido agrave a doença em vez de a curar. Será que, por fim, se juntarão a Mario Draghi do Banco Central Europeu, dispostos a “fazer o que for preciso” para salvar o euro (e os europeus)? Provavelmente tarde e a más horas.

 

E por agora? Os Quislings de hoje? Os que seguem regras ditadas por Berlim via Bruxelas porque senão não há agiota que empreste dinheiro em conta aos países que governam? Poder-se-iam inspirar em Mitterand que começou por servir Vichy, quando sentiu no ar um perfume de vitória aliada se mudou para a resistência e acabou por chegar à Presidência da quinta República, onde ficou catorze anos? Duvido. A História não se repete. Não há génios políticos tortos em todas as gerações nem, quando a austeridade acabar, os povos irão pedir as cabeças dos capatazes de Berlim.

 

José Cutileiro

 

("Os olhos férteis"  foi um livro de poemas escrito por Paul Éluard nos idos de 30. Este título sempre me fascinou - a mim e a um radialista da RDP que tinha um programa de rádio no século passado com este título. Justificação para o título deste "post" no blogue.)

 



publicado por Dito assim às 17:22
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