Literatura, opiniões, memórias, autobiografias, e demais diletantices.
Quinta-feira, 11 de Setembro de 2014
"E se, afinal de contas, tiver de haver mesmo guerra, preparados para a ganharmos. Somos homens ou somos rapazes?"

Esta crónica de José Cutileiro, diplomata, conservador,  que me habituei a respeitar deixa-me preocupado. Já chegamos a isto? 

 

Mau jeito e má-fé

 

 

Há pouco mais de vinte anos, quando a Federação Jugoslava de que o Marechal Tito, durante a Guerra Fria, forjara reputação de farol de liberdade numa Europa Oriental talhada e adubada por Estaline (embora, quanto a virtude, a Jugoslávia fosse assim como pequena que trabalhasse num bordel, saísse, abrisse casa por conta própria e chamasse ao novo estabelecimento colégio de freiras) começara a desmoronar-se e rebentaram guerras locais, uma entre sérvios e croatas, a chamada comunidade internacional agitou-se, um entusiasta declarou que chegara “a Hora da Europa”, entrou-se na contradança de cessar-fogos e uma missão de monitores europeus fazia relatórios diários. Fixei o começo de um: “Cease fire holding despite major violations”.

 

Em 1992, os monitores europeus não eram os únicos interessados em que as pazes fossem feitas. A Alemanha pró-croata e a França pró-sérvia, encastradas na construção europeia — se não fosse esta, disse Mitterand, alemães e franceses ter-se-iam pegado outra vez — moderaram instintos e tradições. Os ingleses ficaram quase de fora; os americanos começaram por apoiar Belgrado porque não queriam dar mau exemplo à União Soviética; quando esta colapsou desinteressaram-se e depois, como é seu costume, inventaram mais um caso de bem contra o mal (o bem eram os muçulmanos bósnios e o mal, os sérvios).Todas as potências, até os russos de Gorbatchev e de Ieltsin, queriam a paz na região. Guerra só queriam mesmo sérvios e croatas — e eram poucos para arreliarem o mundo.

 

Matavam-se uns aos outros com afã, mas pararam quando os mandaram parar. Disputaram-se nas Kraínas, com a mesma etimologia de Ucrânia: terra de fronteira. As histórias são parecidas: na Ucrânia como nos Balcãs, durante a II Guerra Mundial, comunistas e nazis locais pintaram a manta, deixando nas memórias um duro génio de vinganças. Agora, separada da Mãe Rússia pela primeira vez desde que S. Vladimiro baptizou os russos em Kiev, a Ucrânia divide-se entre um Leste pró-moscovita e um Oeste pró-ocidental, o primeiro ainda mais longe de um estado de direito do que o segundo. O país é vasto mas, se os grandes deste mundo quisessem, a sarrafusca acabava e arranjos de paz seriam negociados. Um dos grandes, porém, quer que a sarrafusca continue.

 

É a Rússia de Putin, vingador de humilhações imaginadas que não quer paz na Ucrânia se não for ele a mandar. A tomada descarada da Crimeia (crime nos nossos dias mas bagatela comparada com tantos feitos militares passados) e mentiras igualmente descaradas do Kremlin, guindaram-no aos olhos dos seus à galeria dos grandes estadistas russos. Para nossa segurança futura é preciso travá-lo.

 

Pregar-lhe moral é igual ao litro. Meter-lhe medo sem ameaça de uso da força, tem feito pouca mossa. Mas é por aí, Alemanha à frente, que teremos de ir, apertando sanções até obtermos o efeito pretendido. E se, afinal de contas, tiver de haver mesmo guerra, preparados para a ganharmos. Somos homens ou somos rapazes?

 

10.9.2014

 

 



publicado por Dito assim às 11:27
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