Literatura, opiniões, memórias, autobiografias, e demais diletantices.
Domingo, 9 de Março de 2014
NELLA MAISSA - 100 ANOS EM 2014

EM 7 DE MAIO A PIANISTA NELLA MAISSA COMPLETARÁ 100 ANOS

 

 

No ano em que celebra um século de vida, recordamos quase 80 anos de carreira, dedicados à divulgação do repertório português

Os dedos. Os ouvidos. Os olhos. Os sentidos cederam ao silêncio por força da idade, mas os clássicos nunca se calam no quarto 219 da Casa do Artista, apesar do sono agora perpétuo do piano. A pianista a quem se devem as primeiras audições de peças fundamentais da música portuguesa contemporânea mantém um cérebro vivaz e a memória que os quase 100 anos permitem. De tal forma que dispensa intermediários na marcação deste encontro. Nascida em Turim no seio de uma família sefardita, a 7 de Maio de 1914, instalou-se em Lisboa em 1939, depois de uma viagem de barco com partida de Génova. Para trás ficava a Itália de Mussolini e o teclado da guerra, impróprio para o mais talentoso dos intérpretes. Em 2008, aos 94 anos, deu o seu último concerto, na Casa da Música, no Porto.

Todos estes anos e mantém o sotaque italiano.

Sim, nem nunca o vou perder. Com toda a gente é assim. É uma coisa que nunca se perde.

Há quantos anos saiu de Itália?

Quase há 80. No dia 7 de Maio vou fazer 100 anos.

Como era a vida na sua Turim quase há um século?

Muito diferente. Sabe, 100 anos fazem muita diferença. A vida mudou e a maior parte das pessoas que conhecia morreram. Ia à escola a pé, todos os dias, quatro vezes. Ia de manhã, vinha almoçar e voltava. A empregada acompanhava-me. Sou filha única. Estudava, comia, tomava o lanche, ia para a cama. Não havia televisão, rádio, não havia nada.

Como se distraía?

Vivia-se assim e estávamos habituados. Eu estudava, comia, ia para a cama. Já gostava de música. Aos cinco anos comecei a estudar piano. Tem de se começar cedo, senão os dedos ficam rijos. Era uma vida muito severa. Agora, os meninos fazem tanta coisa...

A música fazia parte da casa?

Não, a minha mãe estava apenas ligada à música vagamente. Eu é que sempre estudei música, dos cinco anos em diante. Fazia a escola e à tarde estudava o piano.

Porquê a escolha do piano?

Não sabia porquê. Aos cinco anos mandaram-me estudá-lo e eu estudei-o. Com o piano, não podia ir passear para a rua com ele. Aos cinco anos, não se sabe nada.

Que faziam os seus pais?

O meu pai era engenheiro e a minha mãe trabalhava em casa, como todas as mulheres naquela altura. As senhoras não tinham emprego.

Gostavam de a ver na música?

Sim, estudei o piano todo. Aos 14 anos diplomei-me, depois fiz o liceu e entrei na universidade. Fiz o curso de Direito e depois, aos 22 anos, casei-me. O meu marido era de nacionalidade portuguesa e quando veio a guerra viemos para cá, para ver como era este país que não conhecia. O meu marido não tinha feito o serviço militar e tivemos de ficar cá mais um ano à espera que o cumprisse. Quando passou esse tempo, tinha rebentado a guerra e acabámos por ficar cá toda a vida.

Como se conheceram?

Frequentávamos a mesma casa de reuniões. Passou tanto tempo... Chamava- -se Renato Maissa. Morreu na década de 50; era muito novo. Tinha um cancro no intestino. Na altura, não se tratava. Foi um horror. Depois vivi sozinha. Foi difícil. O piano foi uma ajuda; foi a minha vida.

Vida que passou por Parma antes de Lisboa.

O meu pai foi trabalhar para Parma. Inscrevi-me na universidade. Fui para Direito por capricho.

Por capricho?

Toda a gente queria ir para o curso de letras e eu quis ser diferente. Acabei o curso, mas depois escolhi música. Participei num concurso de piano em Varsóvia e fiquei entusiasmada. Nunca quis ser advogada.

Já tinha dado concertos antes?

Já tinha feito outros em Itália. Foi em Varsóvia que ouvi os grandes nomes e percebi que era aquilo que queria fazer. Mas o primeiro grande concerto foi no conservatório de Turim, quando voltei de Varsóvia. Acho que correu bem. Era muito nova e não me lembro bem.

Era muito crítica do seu trabalho?

Ao longo da vida aconteceu, às vezes, não gostar tanto de um concerto. Somos críticos de nós mesmos. Sempre fui autodidacta e estudava muito sozinha. Quando me dava prazer, tocava bem.

O piano foi presença em casa desde sempre?

Sim, claro. Acho que sempre houve um piano em casa. A minha mãe cantava de vez em quando.

Mas quando chega a Portugal, no final da década de 30, vê-se privada de piano uns dois anos.

Sim, os móveis levaram dois anos a chegar a Portugal. Estive sem tocar. Quando chegaram, tinha sempre dois pianos ou três em casa. Fui ao conservatório de cá, apresentei-me e fui logo contratada. Fiquei a fazer parte da vida musical portuguesa. No início não tínhamos dinheiro, não tínhamos nada. Não foi fácil.

Gostou do país quando chegou?

Acho que sim. Foi há tantos anos... Cheguei em Novembro de 39. Fomos viver para o Hotel Tivoli. Não tínhamos casa. A primeira casa foi na Rua Fialho de Almeida. Estive lá até 1960. O meu marido comprou uma fábrica, uma fundição de metais.

Tornou-se portuguesa por casamento. O seu marido gostava de escutar o piano em casa?

Não. Ele trabalhava por sua conta, vinha a casa almoçar, jantar. Saíamos à noite, mas cada qual fazia a sua vida. Ele não era músico e não se metia na música. Tinha de ouvir o piano em casa, como toda a gente tinha de ouvir.

Passados todos estes anos, sente-se mais portuguesa ou sempre italiana?

Eu sou internacional [risos]. Sou uma cidadã europeia.

Com um papel importante a divulgar compositores portugueses.

Sim, depois de algum tempo comecei a dar concertos com a Orquestra Sinfónica, com Pedro de Freitas Branco. Nos anos 70 celebrou-se o aniversário de João Domingos Bomtempo e fui a Londres ver as suas coisas ao museu de música. Comecei a divulgá-lo. Gravei a sua obra completa. Fiz uma grande divulgação da música portuguesa. Gravei Lopes Graça, Freitas Branco, Armando Fernandes, que me escreveram concertos e dedicaram sonatas. Ninguém conhecia. Os portugueses não gostam.

Porquê esse distanciamento?

As pessoas gostam pouco das coisas de casa, gostam mais do que vem de fora. Também tocava outros nomes, sempre, mas tocava muitos portugueses.

Com um certo prejuízo da sua popularidade?

Com certeza. Mas nunca pensei nisso. Tocava o que me parecia bem. Não era a única mulher. Havia a Helena Costa, do Porto, mais conhecida que eu. Muita gente tocava. Mas a vida era complicada para todos os artistas nacionais. São muito maltratados. Os artistas estrangeiros são mais bem pagos.

Recorda-se dos primeiros cachês?

Não faço ideia. Sempre fui muito pouco ligada ao dinheiro. Não me importava muito. Ganhava pouco. Era mais bem tratada na Fundação Gulbenkian.

Os seus antigos vizinhos da Rodrigo da Fonseca ainda se lembram de a ouvir tocar.

Tocava todos os dias. Estudava porque tinha de ser. O piano tem de ser estudado todos os dias. Não se pode parar. Era sempre que estava em Lisboa. Quando viajava, tocava fora. Fui a Macau, Brasil, EUA, Europa toda, Rússia. Corri o mundo.

E nunca deu aulas. Nunca quis ensinar?

Não. Não estava interessada nisso. Como sabiam que eu não dava aulas, também não me pediam. Todo o meu tempo era para eu estudar. Estudei cinco anos com o Vianna da Motta, até à sua morte. Cada qual me ensinava qualquer coisa. Aprendemos com todos, e nunca se aprende o bastante. Com certeza, ainda podia aprender mais.

O que é preciso para se ser um bom pianista?

Ah, é preciso muita vontade, muita paciência e muito amor. Muita disciplina. Era a minha vida.

Deu o seu último concerto em 2008, na Casa da Música.

No Porto, sim. Não sabia que era a última vez. Quando voltei, tive uma queda, fui operada, e nunca mais toquei. Toquei ainda uns anos, mas apenas para mim.

Continua a ter um piano aqui no quarto.

Sim, mas há dois anos que não toco. Ouço muito mal, não vejo, e as mãos não são muito hábeis. Comprei tantos pianos... Este foi o último. Tinha um piano de cauda, muito bom, e este, na sala. Num quarto interior tinha outro piano, quando queria estudar de noite. Tocava em surdina para não maçar os outros.

Quando começou a perder a visão?

Em 1976. Apercebi-me uma vez, a ler o jornal. O meu médico disse-me para ir o mais depressa possível à Suíça tratar-me. Tinha a retina aberta. Foi uma coisa muito lenta. Fui perdendo a visão pouco a pouco, até chegar a este ponto.

Ao ponto de não conseguir jogar o seu bridge, como lamentava há pouco.

Pois, não consigo fazer nada. Para tocar, conseguia tocar alguma coisa de memória, mas tinha de ver a música.

Chegou a tocar aqui na Casa do Artista?

Estou aqui há cinco anos. Cheguei a tocar, mas só para mim. Gostava muito de tocar Bach, Beethoven, música romântica, Debussy, Ravel. Muita coisa. As moderníssimas, não gosto tanto. Ouvia jazz de vez em quando, mas a minha música sempre foi música clássica.

Voltou a Itália depois da vinda para Portugal?

Sim, todos os anos. Passava lá o Verão. Tenho lá família. Tinha tios, primos. Ia passar o Agosto a casa dos meus avós. Voltei lá depois da guerra. Durante a guerra fui a Espanha, Inglaterra, mas Itália não.

Qual foi o primeiro concerto em Portugal?

Foi no sindicato dos músicos. Apresentei-me ao público como me apresentava nos outros países. Uma vez toquei no conservatório uma sonata de Beethoven e o "Ludus Tonalis" de Hindemith. Gostei muito desse concerto. Eram poucas pessoas e acho que correu muito bem.

Antes dos três pianos, como ocupava o seu tempo?

Tinha muito que fazer, cuidar da casa, do meu filho. Tinha de viver num país que não conhecia.

Foi fácil aprender o português?

Sim, mas nunca aprendi muito bem. Depois de dois meses, falava como falo agora, e nunca mais fiz progressos [risos]. Tive umas lições. É uma língua latina, parecida com italiano.

Ainda fala italiano com alguém?

Sim, claro, até com as minhas netas, com amigos.

E sobre música, tema que mais lhe interessa?

Adoro falar de música. Falo todos os dias com a Elisa Lamas sobre música. Ela fala-me dos alunos que tem e eu dos que não tenho. A rádio é a minha única companhia. A música de agora interessa-me pouco. Ainda vivo no século passado.

 

 

Por Maria Ramos Silva
publicado em 1 Fev 2014 no jornal I

 



publicado por Dito assim às 19:29
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