Literatura, opiniões, memórias, autobiografias, e demais diletantices.
Quinta-feira, 16 de Outubro de 2014
Os olhos férteis

Desculpem a insistência mas lá volto às crónicas de José Cutileiro no blogue “Retrovisor”.
Lucidez, perspectiva iluminada , conhecimento histórico, linguagem de espirito, português impecável. Visão de um diplomata conhecedor dos meandros da História, ajuda-nos a compreender este mundo que nos rodeia. Vemos a árvore e a floresta.

 

Em 1640, Miguel de Vasconcellos, valido da Duquesa de Mântua, regente do Reino, morreu atirado de uma janela. Em 1945, Philippe Pétain, herói da guerra de catorze, viu a sua pena de morte comutada por De Gaulle e veio a finar-se em prisão perpétua (todos os anos Mitterand, já no Eliseu, mandava pôr um ramo de flores na sua campa no dia do armistício de 1918). Também em 1945, Vidkun Quisling — que, ao governar a sua Noruega natal por conta do ocupante nazi, deu nome genérico a esses traidores ambíguos — foi fuzilado numa prisão de Oslo. Guerras de independência desapareceram da Europa de hoje. Agora, fronteiras e soberanias esfumam-se e o domínio de Berlim sobre as decisões fiscais de outras capitais, impondo políticas de austeridade que estão a estalar pelas costuras e quase a matar o cavalo do inglês, é tão grande que amigo sábio chama à zona euro Alemanha Magna. Até quando?

 

Há dias Matteo Renzi, primeiro-ministro italiano, rapaz quase sempre pimpão demais para meu gosto, acertou em cheio no alvo. Acossado, como outros governantes do sul, por visão teutónica paranoide que faz da inflação pecado mortal — disposta a correr o risco, presumivelmente virtuoso, de deflação — disse: “Prefiro uma França com 4% de défice a uma França com Marine Le Pen presidente.” A questão é essa e é isso que a Alemanha parece incapaz de perceber. Convicta da bondade dos seus valores; de que, no seu seio, nazismo, fascismo, nacionalismo agressivo não brotarão de novo e incapaz de perceber outros povos, insiste em considerar diferenças entre o norte e o sul como combate entre o bem e o mal que será ganho quando nós, meridionais, reconhecermos o nosso erro. Entretanto a deflação está à porta, a crise morde a própria Alemanha e, com coro que vai da Casa Branca ao FMI e ao Papa a pedir estímulos à economia e não só prestações para o tonel das Danaides de dívidas impagáveis talvez Merkel e Schäuble se desimaginem da cruzada moralizante antes que esta arruíne de vez a Europa.

 

Não foram eles que desregularam demais o sistema financeiro nem foram eles que fizeram do euro nossa moeda sem o cuidado devido. A culpa da crise foi doutros — mas é culpa deles que o remédio escolhido agrave a doença em vez de a curar. Será que, por fim, se juntarão a Mario Draghi do Banco Central Europeu, dispostos a “fazer o que for preciso” para salvar o euro (e os europeus)? Provavelmente tarde e a más horas.

 

E por agora? Os Quislings de hoje? Os que seguem regras ditadas por Berlim via Bruxelas porque senão não há agiota que empreste dinheiro em conta aos países que governam? Poder-se-iam inspirar em Mitterand que começou por servir Vichy, quando sentiu no ar um perfume de vitória aliada se mudou para a resistência e acabou por chegar à Presidência da quinta República, onde ficou catorze anos? Duvido. A História não se repete. Não há génios políticos tortos em todas as gerações nem, quando a austeridade acabar, os povos irão pedir as cabeças dos capatazes de Berlim.

 

José Cutileiro

 

("Os olhos férteis"  foi um livro de poemas escrito por Paul Éluard nos idos de 30. Este título sempre me fascinou - a mim e a um radialista da RDP que tinha um programa de rádio no século passado com este título. Justificação para o título deste "post" no blogue.)

 



publicado por Dito assim às 17:22
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