Literatura, opiniões, memórias, autobiografias, e demais diletantices.
Quarta-feira, 8 de Outubro de 2014
PATRIMÓNIO ARQUITECTÓNICO – ESTA É BOA!
PARA MEMÓRIA FUTURA
PATRIMÓNIO ARQUITECTÓNICO – UM EXEMPLO PARA A POSTERIDADE
DESPOVOAMENTO DAS CIDADES? ESTA É BOA!

O nº 33 da revista “Monumentos”, que é interamente dedicado a Guimarães, insere um artigo da autoria do Arquitecto José Manuel Fernandes onde são analisados cinco edifícios da nossa cidade da autoria de cinco arquitetos, selecionados pela importância que tiveram na arquitectura portuguesa nas décadas de 1930 a 1950:
O Mercado Municipal de Guimarães, de José Marques da Silva; o Cineteatro Jordão, de Júlio de Brito; o Palácio da Justiça de Guimarães, de Luís Benavente; a agência da Caixa Geral de Depósitos, de António Lino e, finalmente, uma “habitação para uma família de classe média”, de Luís Oliveira Martins.
Atentemos ao texto sobre o Mercado Municipal. Depois a



O Mercado Municipal de Guimarães constituiu uma encomenda encetada em 1926, tendo havido um primeiro projeto em 1927 e um projeto final, o edificado,em 1936, com o desenvolvimento das respectivas obras até 1947. Situado no gaveto da Avenida Conde de Margaride com a Rua Paio Galvão, foi projetado pelo arquiteto José Marques da Silva. Este autor foio mais importante no Porto nos primeiros anos do século XX, tendo sido diretor da EBAP e o seu principal professor. Arquiteto diplomado pelo governo francês, em 1896, dele podemos referir como alguns dos seus trabalhos fulcrais, no Porto: a Estação de São Bento (1896 -1911); o Bairro Operário de Monte Pedral (1899 -1904); o Teatro de São João (1910 -1920);a casa -ateliê do próprio, na Praça Marquês de Pombal (1909); os Armazéns Nascimento (1914 -1927); os liceus Alexandre Herculano (1914 -1930) e Rodrigues de Freitas (1918 -1933); a companhia de seguros A Nacional, na Avenida dos Aliados (1919). Nestas obras a linguagem arquitetónica de Marques da Silva foi evoluindo, década a década, desde as concepções mais revivalistas, classicizantes e protofuncionalistas até aos temas da Arte Nova (1910 -1920) e do estilo Art Déco (1930 -1940).

Marques da Silva trabalhou um pouco por todo o Minho, de Monção a Barcelos, ou de Braga a Santo Tirso. Em Guimarães concebeu também o projeto para a conclusão da Igreja de São Torcato, bem como os projetos do Parque de São Torcato (1910 -1921), do Santuário da Penha (1931 -1947) e, sobretudo, da poderosa sede da Sociedade Martins Sarmento, num excelente neo -românico, sóbrio mas monumental,(1903 -1908 e 1935 -1950) — talvez o melhor exemplo deste estilo edificado em Portugal. Marques da Silva executou também o projeto dos novos Paços do Concelho da cidade (1916), resultante da sua participação no concurso para a construção do imóvel, promessa do presidente municipal Mariano Felgueiras, em 19142, edificação inacabada e demolida em 1942. O edifício municipal viria a inscrever -se na Praça de Mumadona, integrada no Plano de Expansão da Cidade de Guimarães, que Marques da Silva concebeu em 19383, com extensão da urbanização na direcção do Monte da Costa, não totalmente realizado.

O mercado municipal constitui possivelmente a mais relevante obra do modernismo internacionalista e Art Déco dos anos de 1930 -1940 na cidade ao mesmo tempo que, embora último abencerragem na obra de Marques da Silva, como sua obra tardia, será o melhor exemplo desta fase estilística de entre os seus trabalhos.
O mercado vimaranense, como “mercado -quarteirão”, aberto e pavilhonar (fig. 3), buscando as suas origens tipológicas no conjunto do Bolhão portuense ou na Praça da Figueira lisboeta, constituirá também, possivelmente, um dos mais assinaláveis casos de arquitetura de mercado municipal da sua época em Portugal — senão o melhor. Só com o Mercado dos Lavradores, por Edmundo Tavares, erigido no Funchal em 1940, se criou obra de superior pujança, modernista, nesta modalidade funcional.
Vejamos e equacionemos, pois, que valores marcantes há a relevar. Uma “fachada de aparato”, desenvolvida ao longo da Rua Paio Galvão (que conduz diretamente
ao Toural), perpendicular à Avenida Conde de Margaride, remata a nascente, e oculta o espaço amplo e retangular dos pavilhões de vendas de frescos, dispostos para poente da dita fachada. Duas entradas laterais, justapostas à fachada, abrem para a Avenida Conde de Margaride e para a Rua Sociedade Martins Sarmento; são estas que permitem a entrada no recinto -pátio interno, que se situa em cota mais baixa relativamente à da frontaria, mediante um sistema de escadas escalonado. Dois corpos corridos, de expressão meramente funcional, alinhados a norte e a sul do recinto, conformam o dito pátio, onde se implantam sucessivos pavilhões térreos. O quarto lado carece de expressão e remate arquitetónico.
A organização espacial geral do conjunto escalona assim um corpo com dois pisos, sendo um abaixo do nível da rua e o outro acima, do lado nascente, constituindo este o corpo arquitetónico mais representativo e emblemático do mercado. Os restantes espaços são menos interessantes como arquitetura, mas não comovivência do mercado — o qual, nesta organização que aproveita o desnível do terreno, recorda a distribuição do Mercado do Bolhão.

O desenho arquitetónico do corpo a nascente parece filiar -se numa estética funcionalista estrita, servida por uma primeira “arquitetura do betão armado”.
Assim, parecem corresponder a esta lógica formal, muito estruturalista, a longa galeria com pilares aberta a poente, a série de pilares e pórticos das lojas abertas a nascente e as consolas em betão salientes para a rua.
Já a molduração da entrada central, com o frontão encimado por sucessivos volumes piramidais escalonados, bem como os dois remates (também coroados por frontões piramidais), em cada lado dos volumes trifacetados sitos nas extremas laterais do longo edifício, a nascente, surgem como expressões de um estilo Art Déco corrente, aplicado nos edifícios e equipamentos públicos portugueses desde os finais dos anos de 1920. Tais remates e coroamentos procuravam certamente realçar e dignificar, “em moderno”, à moda da época, o gosto emergente e geométrico — e nesse sentido inovador — da estética do betão armado e dos novos materiais concernentes.
Finalmente, o elã do edifício é “puxado” (quase só) pelas dinâmicas e originais torres de coroamento dos referidos corpos trifacetados (fig. 6), a sul e a norte do volume nascente: são torres de base octogonal, em betão (que parecem ser ventiladores desses corpos), que por sua vez recebem superiormente um volume cilíndrico mais esguio, acima do qual dois pilares “soltos” enquadram um relógio público (um dos leitmotiv deste tempo), o qual é expressiva e ostensivamente assinalado por quatro pequenos discos em betão, horizontais, balançados nas quatro direções possíveis, quase “soltos” no espaço. O relógio está finalmente coberto, no extremo superior, por novo disco, este centrado, igualmente em betão. O todo descrito constitui uma peça de sentido escultural, graciosamente “brincando” com a seriedade municipal do conjunto — mas que resulta, pelo inesperado e pela sua leveza, fortemente caracterizadora do edifício, e dele até o emblema básico.

Em tempo: a seguir é o Teatro Jordão.


publicado por Dito assim às 18:50
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