Literatura, opiniões, memórias, autobiografias, e demais diletantices.
Domingo, 9 de Março de 2014
UM TEXTO NO JORNAL I DA AUTORIA DE SÍLVIA CANECO

Até que a morte não nos separe. Manuela e Ludgero decidiram morrer juntos

 

 

Quando a polícia entrou no apartamento, havia já 18 dias que o casal estaria morto na cama. Tudo indica que terão premeditado o fim a dois Nenhum sinal de vida. Corpos: escuros, com presença de larvas, sombras alienígenas do que terão sido. Hora e causa do óbito: por apurar. Quando a polícia e os bombeiros entraram finalmente no apartamento e encontraram os corpos na cama, a filha de Manuela, de que ninguém sabe o nome, trancou-se no carro, enorme nos seus remorsos e culpa, e dali não saiu. Do outro lado da rua, Sandra e Paulo, que tinham passado dias e dias a ligar para a PSP a pedir socorro, mal viram um agente vir na sua direcção tiveram a certeza: "Eles estão mortos." Manuela e Ludgero Matias, ela com pouco mais de 60 anos, ele já nos 70, tinham sido vistos pela última vez havia 18 dias. Nesse sábado, ao fim da manhã, Manuela chegou ao café da esquina com um novo corte e uma nova cor de cabelo, mais avermelhada, mas desta vez pouco falou. A Sandra e Paulo pediu apenas que cuidassem do Dusty, o seu pequeno cão branco arraçado de minitoy, até quarta-feira, data em que ela e o marido regressariam de uns dias em casa do irmão. Entregou-lhes um saco, passou a trela para a mão de Paulo e abalou sem uma festa no cachorro. Os dois entreolharam--se: "Então mas não nos pergunta se podemos ficar com o cão?" E outra vez, com Manuela já fora do ângulo de visão: "Que estranho. O Ludgero não sai de casa há anos, nunca quer sair." A surpresa adensou-se ainda mais quando chegaram a casa e abriram o saco: lá dentro estavam todas as malhas e roupas de Inverno que Manuela comprara para proteger o Dusty do frio. Mas porquê, se naqueles dias de Setembro o calor ainda nem dera tréguas? "O melhor", incentivou Paulo, "é ires lá a casa, Sandra, ver se está tudo bem." Horas depois, Sandra bateu à porta de Manuela e Ludgero, com a desculpa de que faltavam brinquedos para o Dusty. Ludgero, com quem Sandra tinha frequentes picardias, estava nervoso e saiu a disparar: "Não demores muito, nem mais um minuto, que o irmão da Manela deve estar aí a chegar." Manuela estava especialmente fria, de cabeça baixa. Outra pergunta ríspida de Ludgero, ainda vestido de pijama e roupão: "A minha mulher pagou-te tudo?" Há uns meses que Sandra fazia limpezas lá em casa e passava a ferro. Acenou que sim, mas era mentira. Manuela, com receio de que o marido a castigasse pela má gestão do dinheiro, levantou ligeiramente os olhos e uniu as mãos como quem diz "Deus te abençoe". Na sala, entre um sofá e outro, Sandra viu uma mala castanha, de napa, mas estranhou que estivesse tão mole e pouco recta. Quando chegou a casa exclamou: "Paulo, tenho a certeza: a mala estava vazia." Porque estariam a querer afastá-los? Manuela e Ludgero, saídos de casamentos despedaçados, conheceram-se em Odivelas. Uns anos depois de vida em comum, ela perdoou-lhe as noites no Cais do Sodré, acreditou nas promessas de fidelidade eterna e aceitou casar-se. Há oito anos decidiram mudar-se para outra freguesia dormitório e compraram um apartamento ali, em Santo António dos Cavaleiros, Loures. Consta que Manuela queria fazer obras em casa mas a tralha que acumulava era tanta que a única solução que encontrou para não ter de levar tudo para um armazém foi convencer o marido a comprar uma nova. No prédio de 15 andares e 90 apartamentos, onde pelo menos 180 pessoas entravam e saíam diariamente, poucos sabiam quem eram, de onde vinham, se tinham ou não familiares. "Isto é um mundo cão, claro que eles passavam despercebidos", atira uma moradora. Havia até quem não soubesse os seus nomes, como a vizinha da porta ao lado, que, ao fim do 18.o dia colada à morte, não aguentou mais o odor que dava vómitos e correu para a esquadra da polícia a pedir ajuda. Já se tinha perguntado "se o senhor estaria doente", estranhando não o ver da janela, sentado à mesa da cozinha, a jantar às 18h30 em ponto, como era sagrado. Ou por que razão, não parando de chover há dias, a janela do quarto continuava aberta dia e noite. Lucília, a vizinha do rés-do-chão que todos tratam por Chila, ainda frequentou a casa do casal e foi companhia no café, mas já vão longe esses tempos. À medida que Manuela ia ficando mais em baixo, ia-se afastando, em trajectória inversa às fragilidades da vizinha do 4.o andar. "Já era doente e comecei a sentir que estava a viver muito a vida dela." Há anos que Manuela frequentava consultas de psiquiatria e vivia sob o efeito de antidepressivos, calmantes e ansiolíticos. Segundo Sandra, terá tentado duas ou três vezes o suicídio, vezes suficientes para a filha achar que era "egoísta". "Achava que a tristeza dela devia vir de algum lado. Mas ela não contava, não se abria. Sugeri que fosse a um psicólogo e ela disse-me: vou lá contar a minha vida a alguém", lamenta Lucília. Numa das últimas idas à psiquiatra, Manuela saiu com nova receita: doses cavalares de Diplexil, Morfex e Diazepam - um antiepiléptico e dois ansiolíticos. Os vizinhos recordam-na a cair pelos cantos, a andar de lado, com os movimentos presos ou arrastando a voz. A perda de equilíbrio provocada pelos medicamentos chegou mesmo a despertar na vizinhança a tese de que andaria alcoolizada. Segundo Sandra, Manuela deveria estar a fazer um tratamento que funciona como uma espécie de semicoma: horas e horas a dormir. O problema é que não ficava em casa e Ludgero, cansado de a ver aos caídos, lhe ia cortando a medicação. A depressão obrigou Manuela a pôr baixa médica atrás de baixa médica. Forçada a voltar ao trabalho numa clínica do IPO de Lisboa, não resistiu à sonolência provocada pelos barbitúricos: à terceira vez que adormeceu ao volante, o carro foi directo para a sucata. Continuou a trabalhar mas ia de táxi: o salário nem dava para pagar essa despesa. A SOLIDÃO À medida que os anos iam passando, eram cada vez menos os que batiam à porta do 4.oC. Lucília afastou- -se. A filha de Ludgero, que as vizinhas dizem viver em Inglaterra, nunca ali foi e a filha de Manuela, se foi, nunca foi vista. Ela, mesmo sob o efeito de sedativos, não dispensava a ida ao café, ao supermercado e à boutique do bairro: era consumista compulsiva, a ponto de comprar até o que não lhe servia. O armário era repetitivo: calças e camisolas largas, acetinadas. Pelos cantos, como engordara muito com os medicamentos, já só lamentava não encontrar camisolas de algodão para o seu tamanho. Ele, reformado da banca, há para aí três ou quatro anos que só era visto à noite, a passear o cão na praça junto ao prédio. Passava os dias em casa, a grelhar entrecosto para o jantar - a única refeição que faziam -, ou a ouvir as músicas do VH1, deitado na cama, cinza do cigarro a cair e a esburacar os lençóis. Só quando precisava de fazer exames abria uma excepção à clausura. Os vizinhos suspeitavam que teria um problema nos intestinos, porque andava amarelo e de barriga inchada. A Sandra e Paulo, os poucos que eram visita do casal e viam Ludgero correr para a casa de banho oito vezes numa noite, contaram que os resultados dos exames foram inconclusivos. Os amigos sugeriram um teste do HIV: nunca chegaram a saber o resultado. Estavam sentados numa mesa do café da esquina quando o casal Matias pôs os olhos neles. Um dia o cão era tema de conversa e de afagos e no outro estavam a jantar lá em casa. "Eles connosco eram pessoas normais, estavam felizes", recorda Sandra, há mais de uma hora a chorar ininterruptamente. O frigorífico e a arca estavam carregados de comida mas, sempre que eram convidados, o jantar era o mesmo, acabado de comprar no supermercado: entrecosto grelhado e batatas pré-fritas congeladas. Manuela dizia que assim era mais rápido, não precisava de descongelar. Sandra e Paulo já reviravam os olhos ao entrecosto, mas, como gostavam da companhia, nunca recusaram. Depois do jantar, ficavam até às 3, 4 da manhã, a falar sobre a vida ou a ter discussões esotéricas: Ludgero e Manuela acreditavam na vida para além da morte. Sandra e Paulo eram os companheiros mais improváveis: uns bons 20 ou 25 mais novos, viviam entalados no prédio de habitação social mais problemático da zona e estavam longe de ter boa fama na vizinhança. Aparentemente, à superfície, nada havia de semelhante entre um casal e outro. Apesar disso, nunca ninguém chegou tão próximo.

 

(1ª parte)

 

Por Sílvia Caneco publicado em 9 Out 2013 no I



publicado por Dito assim às 19:04
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