Literatura, opiniões, memórias, autobiografias, e demais diletantices.
Domingo, 9 de Março de 2014
UM TEXTO NO JORNAL I DA AUTORIA DE SÍLVIA CANECO

Até que a morte não nos separe. Manuela e Ludgero decidiram morrer juntos (2ª parte)

 

 

A queda Aos poucos, os acontecimentos iam encaminhando o casal para a tragédia. O primeiro baque veio com a morte da irmã de Manuela, um fim relâmpago depois da notícia de um cancro da mama. No dia do funeral, concentrou- -se num só detalhe: depois da doença que a tornara quase irreconhecível gostara de a ver no caixão "muito compostinha". A filha parecia cada vez mais distante: numa das últimas idas à clínica onde ambas trabalhavam, para fazer um exame, Manuela saiu de rastos porque a filha nem sequer se aproximou. Em Agosto rebentou-lhes um cano na casa de banho. Ela passou a ir tomar banho a casa de Sandra e Paulo, ele começou a lavar-se com toalhitas. Nas últimas semanas, tinha chegado à caixa de correio uma carta da junta de aposentação: há anos que Manuela esperava por aquele momento, mas agora que ele estava próximo começara a fazer contas. A ideia de vir a receber ainda menos dinheiro, somada ao corte na reforma de Ludgero, destruía-a. Pelo meio dos jantares e conversas nocturnas, iam deixando desabafos: "Quando se acabar o cartão de crédito, não sei como vai ser."

A mudança nas rotinas de Sandra e Paulo foi o desastre derradeiro. Sandra arranjou trabalho em Agosto, em Lisboa. Manuela, mesmo assim, ficava no café à espera dela. Na última semana Sandra chegou mais tarde por causa de um congresso e Manuela ia-se arrastando, cada vez mais sozinha, carregando sacos de compras inúteis. Por dentro, em silêncio, o casal sabia estar mais próximo da morte.

"Sabíamos que quando fosse iriam os dois", desabafa Sandra. "Sinto-me magoado com eles. Ficámos a perder em todos os aspectos. Não deviam ter feito isto connosco", remata Paulo, num misto de revolta e inquietação por não ter feito mais. Na casa onde jazem sobre o sofá roupas do casal passadas a ferro, mais dois minutos de silêncio, lágrimas e angústia.

A angústia É quarta-feira e o casal não regressa nem telefona a avisar que adiou o retorno, ou a perguntar pelo Dusty. Sandra e Paulo começam a ficar inquietos: tudo parece confirmar os seus instintos. À noite tentam ligar para Manuela e Ludgero: os dois telefonemas vão directos para a caixa de mensagens. Vão ao prédio e falam com a porteira e com Lucília, que também tenta ligar, mas não consegue. Na sexta ligam pela primeira vez para a PSP a relatar o desaparecimento. Quem atende dá uma resposta brusca: "Há algum cheiro no prédio? Vocês nem sequer são família e eles são maiores e vacinados."

A essa hora, se a morte tiver sido imediata, já os corpos deitados nos lençóis começavam a entrar em putrefacção. Mas se a dose de comprimidos tiver sido mais reduzida, o processo pode ter sido tão lento que naquele momento os corpos ainda podiam estar em coma e agonia. A morte, dizem os investigadores, não é um momento, mas um processo.

A partir daquele momento não houve dia que São, a porteira, não espreitasse pelo buraco da fechadura. Tudo escuro. Sandra e Paulo ligam de novo para a PSP, que volta a pedir nome, contacto e morada e promete ligar de volta. Nunca ligaram e o casal começou a pensar que o problema estava na morada, que remetia para o prédio problemático em que os bombeiros tinham de transportar macas pelas escadas até ao 9.o andar porque os elevadores só funcionaram nos primeiros meses. Também chegaram a ligar para a Polícia Judiciária, que, depois de repetir as mesmas perguntas, os aconselhou a contactarem a PSP. Sandra insistia ter indícios de que o desaparecimento tinha sido planeado. Nada aconteceu.

Só quando o calor voltou, depois de uma semana de chuvas e temperaturas frias, um ligeiro cheiro a podre se infiltrou no prédio. As moscas varejeiras, que as superstições associam à chegada de uma carta ou de uma novidade, começavam a rondar o edifício. As vizinhas subiam e desciam vários andares para espreitaram o apartamento de vários ângulos, com olhar de corujas. Até que a do 6.o andar teve uma ideia: amarrou a trela da cadela a um espelho e fê-lo descer lentamente até à janela do quarto do casal. Quando o objecto tocou no cortinado salmão que há duas semanas baloiçava, do lado de fora, para cá e para lá, um enxame de varejeiras saiu do quarto e um cheiro agoniante começou a subir. De lá de dentro não conseguiram ver nada.

Na quarta-feira, 18 dias depois da última vez que tinham sido vistos, São anda pelos corredores a limpar o prédio e com vontade de vomitar. A vizinha do lado também já não aguenta e corre para a PSP: tinham de ir lá, já.

A essa hora, os tecidos estavam em total decomposição. A pele enchera-se de bolhas e rebentara com a pressão dos gases, que libertam uma mistura nauseabunda de gás sulfídrico, metano e amónio. Um elemento da PSP quebra o silêncio para fazer uma só pergunta às vizinhas: "Eram brancos ou pretos?" As bactérias famintas deixam os cadáveres irreconhecíveis.

O fim O que tinha acontecido no 4.oC do prédio de 90 apartamentos? Uma equipa conjunta da brigada de homicídios e da polícia científica ainda estava no terreno a investigar e já a vizinhança encontrava as suas respostas.

Manuela e Ludgero sabiam que iriam morrer e planearam-no com minúcia e requinte. Não foi só o cão que foi entregue para que não morresse, também ele, à fome e à sede. Os telefones foram desligados, a viagem foi encenada, a mala, deixada na sala, estaria de facto vazia. Na mesa-de-cabeceira, ao lado da cama, uma carteira guardava todos os documentos de identificação e cartões bancários.

Mas como poderia Manuela estar tão calma e silenciosa antes de morrer? Teria sido um plano a dois ou Ludgero, um homem "à antiga", "azedo" e com um grande ascendente sobre ela, tê-la-á convencido prometendo-lhe um futuro novo e mais feliz? Que desgraça determinou que aquele seria o momento?

Os investigadores não suspeitam de outra hipótese que não um duplo suicídio. Não havia indícios de confronto, desalinho ou desarrumação. Os corpos contam que terão morrido em horas próximas, mas quem morreu primeiro, ou como tudo se precipitou, ali ficará enterrado, num sigilo que as paredes não irão violar.

No café mais próximo suspira-se e murmura-se: "Ninguém devia morrer sozinho." Manuela e Ludgero não o quiseram. À hora que tinham planeado, àquela hora em ponto, depois do último cigarro, fumado ali mesmo, na cama, engoliram com a ajuda de um copo de água uma dose brutal de comprimidos. Terão passado dias, talvez meses, a planear aquele momento. Não haveria mais depressão, nem dores, nem doenças, nem famílias ausentes, nem solidão.

Terá sido Ludgero, que deixara escapar em conversa com Sandra já ter experimentado os comprimidos da mulher, a estudar a dose certa para não falhar. Manuela planeara tudo para que pudessem ser encontrados quatro dias depois, dia em que voltariam da tal viagem, ainda a tempo de ser enterrada "compostinha", como gostara de ver a irmã na hora da morte. Aqui o plano falhou.

A janela continua aberta, com o cortinado do lado de fora. A caixa de correio está a abarrotar, com publicidade, cartas do hospital para ela e da União de Créditos Bancários para ele. As luzes, que tinham ficado acesas depois da visita dos inspectores, foram finalmente desligadas porque um irmão de Manuela se encarregou de desligar o quadro, do lado de fora do apartamento. Lá dentro, nunca mais ninguém entrou.

Manuela e Ludgero fechavam sempre a porta por dentro, mesmo quando estavam em casa. No dia em que a polícia chegou estava apenas no trinco.

 

 

(2ª parte)

 

Por Sílvia Caneco publicado em 9 Out 2013 no I



publicado por Dito assim às 19:45
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